Manual para matar ratos

- Tudo bem, desliga essa TV.
- Não, eu quero assistir um pouco antes de dormir.
- Por que você não lê alguma coisa ao invés de ver reprise de novela?
- Porque eu gosto da novela.
- Apaga a luz.
- Achei que você ia ler antes de dormir.
- Não, só ia deixar acesa se você fosse ler, eu quero dormir.
- Não, eu vou assistir TV.
- Então apaga essa porra.
- Tá bom, vou apagar. Mas tudo bem se eu ver TV?
- Tudo bem, pode deixar ligada, mas deixa baixo, quero dormir.
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Ainda tá alto, dá pra abaixar mais um pouco? Você sabe que eu não consigo dormir com barulho.
- Se eu abaixar mais eu não vou ouvir.
- Mas eu não quero ouvir, quero dormir.
- Quer que eu desligue?
- Não, só quero que deixe mais baixo.
- Mais baixo eu não vou ouvir.
- Então desliga essa porra.
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Porra, agora eu não consigo mais dormir.
- O que aconteceu, amor?
- Não consigo mais dormir por causa da sua maldita novela.
- Mas eu já desliguei…
- Foda-se! Me fez perder o sono. Ainda tem vodca?
- Não sei, vê na geladeira.
- Tá bom.
- Fecha a porta quando sair pra luz da cozinha não me atrapalhar, por favor.
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Hey…
- Hm…
- Ainda tá acordada?
- Hm.. Tô.
- Tem um rato na cozinha.
- Deixa ele lá. Entra aqui, fecha a porta e dorme. Amanhã você mata.
- Tá louca, mulher? Não vou conseguir dormir sabendo que tem um rato em casa.
- Então vai lá e mata. Mas não faz barulho, quero dormir.
- Tá bom.
- Fecha a porta quando sair pra luz da cozinha não me atrapalhar, por favor.
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Hey…
- Hm…
- Matei o rato!
- Parabéns, agora apaga essa luz e vem dormir.
- Não consigo, to sem sono e preciso tomar um banho, fiz uma sujeira grande na cozinha.
- Então vai tomar banho e vem pra cama, amanhã eu limpo a cozinha.
- Tá bom.
- Fecha a porta do banheiro, não quero o vapor do chuveiro no quarto todo, e apaga luz.
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Porra, abaixa esse volume.
- Agora eu to sem sono. A cara daquele ratinho ainda ta na minha cabeça.
- Quê?
- Você nunca matou um rato, não sabe como é.
- Tenho certeza de que não é pra tanto. Abaixa isso, eu quero dormir.
- Tirar uma vida inocente é barra…
- Era um rato!
- Era uma vida, mulher. Insensível!
- Tá bom, eu sou insensível, mas abaixa o volume.
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Ainda tem vodca?
- Mas que porra, você não viu aquela hora?
- Não! Tinha um rato na cozinha, esqueci da vodca.
- Eu sei que tinha um rato.
- Não vou conseguir dormir sem a vodca, mas o rato ainda tá na cozinha.
- Você largou um rato morto na cozinha?
- Você disse que ia limpar amanhã…
- Mas eu não achei que tinha um cadaver jogado no meio da minha cozinha!
- Não é um cadaver, é um rato morto.
- Um rato morto é um cadáver, sua anta.
- Vai lá pegar a vodca pra mim?
- Você tá com medo de um rato morto?
- Não, to com remorso. Não consigo olhar pra ele.
- Ai… tá bom.
- Obrigado.

- Caralho! Precisava fazer toda aquela bagunça?
- O rato era esperto, tive que afastar a mesa.
- Tem uma poça de sangue de rato no meio da minha cozinha!
- Ratos tem sangue também.
- Eu não vou limpar aquilo.
- Você disse que ia limpar.
- Eu não sabia como estava… Eu tenho nojo.
- Você não deveria prometer coisas que não vai cumprir.
- Eu tenho nojo!
- Cadê a vodca?
- Não peguei! O chão ta cheio de sangue e eu to descalça, não ia andar até a geladeira com o chão naquele estado.
- E agora?
- Agora dorme.
- Não vou conseguir dormir sem a vodca.
- Assiste TV até dormir, então, oras…
- Não consigo dormir com barulho.
- Meu deus! Só vira e dorme!
- Tá bom. Então apaga a luz.
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Hey…
- Hm…
- Quer transar?
- Não, só quero dormir.
- Frígida!
- O quê?
- É, frígida!
- Por que eu sou frígida?
- Porque não quer transar.
- Eu to com sono!
- Mas eu não tô… e to sem vodca.
- Dane-se.
- Não quer mesmo transar?
- Não!
- Tá bom. Desculpa. Boa noite.
- Boa noite.

- Porra, o que você tá fazendo? Apaga essa luz!
- Tô procurando o desengordurante.
- No quarto, ô, idiota? Pra que você precisa de desengordurante?
- Joguei agua no chão da cozinha pra tentar limpar, mas o sangue não saiu todo. O chão tá grudando, preciso acabar de limpar.
- Mas você ta se sujando de novo! Você não vai deitar assim na cama.
- Tô sem sono.
- Você tem que acordar cedo pra trabalhar… Toma um banho e deita logo. Amanhã eu passo pano na cozinha.
- Tá bom.
- Fecha a porta do banheiro, não quero o vapor do chuveiro no quarto todo, e apaga luz.
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Hm…
- Hm…
- Hm…
- Hm…
- Hm…
- Hm…
- Ah….
- Satisfeito?
- Agora tô. Desculpa te chamar de frígida.
- Tudo bem. Agora que você já gozou, vai dormir.
- É que eu tava com a cara do rato na cabeça.
- Falando nisso, onde você jogou o rato?
- No cesto de lixo na rua.
- Não, amor, não pode! Quando o lixeiro jogar o saco no caminhão, o cadaver vai explodir na cara dele.
- Explodir o que? Todo o sangue o filho da puta tava no chão, não tem nada pra explodir.
- Vai lá, tira de la.
- Não, quero dormir agora.
- Vai tirar de lá!
- Tá bom.
- Fecha a porta.
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Eu trouxe a vodca, quer um pouco?
- Apaga a luz, porra!
- Bebe um pouco comigo, por favor.
- Você tá chorando?
- Tô!
- Por que?
- O rato, porra. Ele não merecia ser esmagado por uma vassoura só por ser mais indefeso.
- Você tá bêbado! Há quanto tempo você tá aí parado bebendo?
- Sei lá.
- Puta que pariu…
- Melhor eu dormir.
- Você não vai deitar comigo com esse bafo. Vai escovar os dentes.
- Tá bom.
- Agora!
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Sabe o que eu to pensando?
- Você ainda não dormiu?
- Não, to pensando aqui.
- No que?
- Posso te perguntar uma coisa?
- Fala logo.
- Agora há pouco, você gozou também ou só transou comigo pra eu dormir logo?
- E importa?
- Claro que importa!
- Gozei também. Satisfeito?
- Mentira!
- Pff…
- Frígida!
- Você tá bêbado!
- Vou dormir na sala, não quero dormir com você.
- Vai logo!
- Vou mesmo!
- Porra, apaga a luz!
- Tá bom. Boa noite.
- Boa noite.

- Amor?
- Hm…
- Volta pra cama, tá frio aqui.
- Não quero.
- Vem pra cama.
- Você gozou?
- Gozei, amor. Agora vem pra cama.
- Jura?
- Juro.
- Tá bom, eu acredito em você.
- Isso, vem… Não! Não pisa aí!
- Tá bom.
- Isso, deita.
- Eu te amo, sua frígida.
- Eu também, seu idiota.
- Você me acha idiota mesmo?
- Não, é só maneira de falar.
- Jura?
- Juro.
- Tá bom, eu acredito em você.
- Agora dorme.
- A luz da cozinha ficou acesa.
- Foda-se, já tá amanhecendo mesmo, não faz diferença.
- Tudo bem. Boa noite.
- Boa noite.

Publicado em: às 30/01/2013 em 4:09  Deixe um comentário  

Mulheres Negras

1.

Não havia uma única estrela no céu naquela noite. Nenhuma santa alma perdida e torta andava pela rua, nenhum som podia ser ouvido em lugar algum além das goteiras que ecoavam nas calçadas. Somente as lâmpadas amarelas dos postes e as luzes de Natal iluminavam os ratos que andavam pelo meio-fio e os mendigos que dormiam embaixo dos jornais. Nenhum deles podia ver a lua escondida atrás dos prédios e das nuvens, só que ninguém dentro daquele quarto sujo de hotel estava interessado nisso – nós tínhamos coisas mais importantes para pensar.

Eu estava amarrado na cama, cada membro do meu corpo estava imóvel mas, instintivamente, eu só me preocupava com meus testículos expostos àquela maníaca. Ela estava nua, em pé na cama com um salto alto, gritando comigo. Na mão, um caco do vaso de vidro que ela havia quebrado na parede um pouco antes.

“Babaca, filho da puta! Seu escroto filho da puta!”

Eu não respondia. Estava muito assustado tentando silenciosamente desamarrar os lençóis que prendiam meus pulsos ao estrado da cama. Ela continuava pulando no colchão. O cabelo desarrumado e os seios balançando por sobre o meu rosto. Por um segundo esqueci do resto do quarto e, mesmo assustado, parei para admirá-la mais uma vez. Por mais que ela se mostrasse naquele momento uma maníaca possessiva e violenta, ainda assim era uma das mulheres mais lindas que eu já havia visto. Sua pele negra brilhava com o suor e mesmo de longe eu podia sentir a textura, a maciez e o cheiro adocicado que ela expelia pelos poros. Os seios de tamanho médio que cabiam perfeitamente nas minhas mãos e os mamilos grandes e negros que pareciam serem feitos pra minha língua e meus dentes. A cintura fina, os quadris largos e os negros e encaracolados pelos do púbis completavam a silhueta que me fazia ter vontade de me soltar e tomá-la violentamente mais uma única vez. Mas não. Ela ainda pulava descontroladamente em cima do colchão. Andava de lá pra cá, impaciente, saltava da cama, mexia no criado-mudo, bebia o champanhe da garrafa e, num pulo, voltava a cravar o salto alto no colchão apontando o pedaço de vidro afiado para o meu rosto.

- Mas eu nunca disse isso, querida…

- Não… me chama… de querida.

- Mas você é. Eu te amo.

- Eu vou cortar seu rosto todo com isso! – Disse montando em mim outra vez chacoalhando o pedaço quebrado do vaso em direção às minhas bochechas.

Eu sempre gostei de mulheres negras e com o tempo aprendi onde achá-las sem precisar procurar muito. Desde que eu era um adolescente cheio de espinhas na época da escola, as garotas brancas nunca me interessaram muito. Sempre achei sem graça o estereótipo (que meus amigos julgavam perfeito) da garota loira pálida, com as maças do rosto rosadas, peitos grandes e olhos claros. Quem me interessava era a garota da sala ao lado na sexta série. Ela tinha os cabelos crespos armados e usava uma presilha com uma flor de plástico presa ali. O ano todo eu a observei pelos corredores desfilando com a camiseta branca do uniforme sem mangas, a calça preta, os tênis vermelhos e a flor no cabelo sem coragem de chegar perto dela. Dois anos depois ela ainda era a garota mais linda da escola. Os seios tinham crescido, mas ela ainda usava o mesmo numero de camisetas, fazendo com que os seios ficassem marcados ali como peras por baixo do sutiã. Isso alimentou minha imaginação por algum tempo até que no fim de ano ela me abordou.

“Você tem horas?” Eu olhei meu velho relógio de pulso que eu havia achado perdido na gaveta alguns meses antes. “Quinze pras onze,” eu disse. “Obrigado.” E se virou, dando as costas pra ir embora. “Hey!” Eu a toquei no ombro e ela se voltou pra mim. “Qual seu nome?” Eu sabia o nome dela, claro, mas eu tinha que começar a conversa de um jeito ou de outro. Então ela não me disse. Mas antes de ir embora, me beijou, sorriu e saiu com os cabelos balançando. Foi ali que eu tive certeza que mulheres negras eram muito melhores que as brancas. Pelo menos até eu encontrar Laura outra vez naquela boate.

De fato eu não sei se era uma boate ou um bar, mas as pessoas bebiam e dançavam funk, soul e R&B lá. Era uma boate quase que exclusivamente de negros, então nós estávamos chamando mais atenção do que eu gostaria. Falamos sobre os antigos amigos, os novos trabalhos, e sobre nosso affair que durou mais de um ano. Uma hora e meia depois eu estava sendo chupado numa das cabines do banheiro feminino, não pela Laura como eu gostaria, mas pela Paula.

- Vai, responde!

Agora Paula estava montada em mim com o caco de vidro na direção do meu olho. A vulva friccionada contra a minha barriga. Meu pênis, agora ereto, apontando para o ânus dela, se pudesse falar, diria “Cavalga em mim!”

- Eu não posso responder se você não me disser o que quer saber!

- Você sabe muito bem o que eu quero saber! – Ela começou a passar a ponta do caco de vidro no meu tórax fazendo cortes longos e finos. Eu segurei a dor. Apertei os dentes e não gritei. Senti o sangue escorrendo por entre meus pêlos. – Eu vou continuar com isso até você me dizer.

- Eu não sei o que você quer saber, pelo amor de deus! Ela saiu de cima de mim e começou a andar pelo quarto, impaciente. Abriu o frigobar, pegou uma cerveja e tomou toda em dois ou três goles. Mexeu nas gavetas do criado-mudo; estavam todas vazias a não ser pela bíblia que os hotéis sempre deixam por ali.

- Porque você tá fazendo isso?!

- VOCÊ me diz. Por que eu estou fazendo isso?

- Me tira daqui, por favor, eu não sei o que eu fiz, mas a gente pode resolver de outro jeito. Se você me desamarrar a gente pode conversar direito.

- Conversar? Você não acha que já conversou demais? Que já me levou muito nessa tua conversa?

E nisso, de súbito, cravou o pedaço de vidro na palma da minha mão esquerda, ainda presa pelo lençol no estrado da cama. Eu gritei. Gritei tanto que ouvi o eco da minha própria voz vagar sozinho pelos corredores do hotel. Ela me olhou rindo de uma maneira forçada, imitando a gargalhada dos psicopatas de filmes de terror, tentando esconder o próprio nervosismo.

- O que você quer que eu te diga? O que você quer que eu faça? Por favor!

- Não quero que faça nada, só quero que admita o grandessíssimo filho da puta que você é.

- Eu não entendo… Se você quer me punir por alguma coisa, que pelo menos me diz o motivo!

Ela se calou. Enquanto eu via o sangue quente escorrer pelo buraco na minha mão, ela andou pelo quarto tentando encontrar alguma coisa. Olhou debaixo da televisão, outra vez revirou as gavetas, mas desistiu e se sentou na poltrona em frente à cama.

- Você nunca amou ninguém – Ela disse olhando pra baixo, como se falasse sozinha. – Você voltou com a cara de um cãozinho perdido, me pediu pra ficar uma noite, depois outra e outra e eu acreditei. E agora? Agora você ME pergunta por que eu estou fazendo isso…

- Eu pensei que você tivesse me desculpado de verdade. Eu sempre quis você, só você.

- PARA DE MENTIR UMA VEZ NA SUA VIDA! Como você consegue? Como consegue se olhar no espelho?

- O que eu fiz não foi certo, mas eu me arrependi. Voltei e te pedi perdão, mas se você não consegue entender isso…

- Eu tenho que entender que você ainda continua enfiando esse teu pau torto na mesma vadia com quem você me traiu?

- Não! Pelo amor de deus, não! Eu nunca mais vi a Laura.

- Ah, é? – Claro! Eu juro! Agora me solta, por favor. – Você acha que eu sou burra? Eu vi aquelas malditas flores! Você andando pela rua com um sorriso na cara, entrando na loja de flores e saindo com aquilo… Aquele buquê gigante, vermelho… Seu filho da puta!

- Oh.. não, não.. espera, não! Você tava me seguindo? Você é louca!

- Ah, agora você admite!

- Não! Porra…

Eu não sabia mais o que dizer. Olhei minha mão esquerda, ensanguentada  presa pelos lençóis.

- As flores eram pra você…

- Seja homem uma vez na sua vida, para de mentir!

- Claro que eram. Pra quem mais seriam?

- Pra Laura, quem sabe? – Disse ela num tom solene, como se fizesse uma apresentação. – A linda donzela indefesa. VADIA!

- As flores eram pra você. Se você estivesse em casa agora ao invés de ter me trazido aqui pra isso, teria visto. Ela cruzou os braços.

- Eu não acredito em você.

- Olha o bolso direito da minha jaqueta, o do lado de fora.

Ela andou até a cadeira onde a jaqueta ainda descansava sobre o encosto, enfiou a mão no bolso e tirou a pequena caixa dali. Abriu, olhou, arregalou os olhos e, ainda com olhar confuso, se virou pra mim.

- Isso é pra mim?

- Sim, essa aliança era pra você. Eu ia te pedir em casamento hoje antes de você surtar desse jeito!

- Como? Ah… Como? Como eu sou estúpida! São lindas!

Ela começou a chorar compulsivamente, se agarrava ao pé da cadeira e gritava, dava tapas em seu próprio rosto. Levantou os olhos pra mim.

- Você algum dia vai me perdoar por isso? – Disse ela apontando pros lençóis que me pendiam à cama.

- Eu não sei. Mas seria um bom começo você me desamarrar…

Ela se levantou do chão. Naquele momento toda a doçura de seu corpo nu agora era visível. Ela andou suavemente pelo quarto, da cadeira até a cama e, ainda com lágrimas nos olhos, desamarrou os lençóis dos meus pulsos.

- Me desculpa, por fav…

Antes que ela pudesse terminar a frase, eu a acertei na cabeça com o abajur.

2.

Minha cabeça doía. Olhei em volta, mas não reconheci coisa alguma com a vista embaçada. Tentei me lembrar onde estava.

“Ele ia me pedir em casamento. É! Mas alguma coisa me bateu. O que será?”

- Você não vai desmaiar de novo, vai? – Eu ouvi ao longe

Abri os olhos e ele estava em pé, de cuecas e a camisa fechada até o começo do tórax, um cigarro aceso e a mão com um curativo ensanguentado feito de um pedaço do lençol. Olhei assustada para os meus pulsos, eu não estava amarrada. Me sentei na cama e senti uma tontura. Levei a mão à testa e respirei fundo.

- Agora você deve estar pensando “por que ele fez isso?”, não é?

- O que?

- Ah, é.. agora você ainda está assimilando as coisas. O buquê, o anel, o caco do vaso, o quarto. Relaxa, daqui a pouco você entende.

Eu não conseguia. Me deitei outra vez e olhei pro teto bege. Tudo à minha volta rodava, minha cabeça doía muito.

- Relaxa, eu não vou te matar.

- Ãh?

- É, só esperei você acordar pra poder ir embora. Assim eu sei que você não vai correndo pra policia e blablabla.

- Por que eu iria pra policia?

- Porque eu te deixei desacordada com um abajur, por exemplo. Por mais que fosse legítima defesa, a gente sabe que abuso doméstico nunca tem muita saída.

Tudo começava a fazer sentido.

- Por que você fez isso?

- Porque você é louca! Eu vim pra cá finalmente dar um pé na sua bunda e ir pedir a mulher da minha vida em casamento logo depois, mas você TINHA que me prender numa cama de um hotel barato e me ameaçar com um pedaço de sei la o que. Minha mão ta fodida! Olha isso! Sua puta!

- Pera aí, quando eu te chamei aqui você só ia terminar comigo?

- Não era merecido? Todas aquelas ligações silenciosas, as perseguições, as visitas pra Laura no trabalho dela? Você acha que eu não te vi me olhando de dentro do carro hoje cedo quando eu estava comprando as flores? Vai se foder! Só aceitei vir pra cá pra você se tocar.

- Então nada daquilo era pra mim? Então vo.. voce só..

- Você é lerda assim sempre ou ta zonza ainda? Quer um café?

- Você não ama ninguém… Como pôde?

- Claro que eu amo, mas nunca seria você. Você é louca, chata, possessiva… Nem eu nem ninguém pode amar você.

Agora tudo tinha mesmo feito sentido. Ele me usara enquanto não podia estar com a outra. Aquela vadia branca, sem sal, sem nada. Me levantei. Pude ver ele se endireitar na cadeira, ficar tenso.

- Não vou fazer nada, só vou me vestir pra ir embora.

- Ok.

Me virei e coloquei a calcinha e o sutiã sem olhar pra trás, a calça e a camiseta estavam do outro lado do quarto e eu tive que olhar pra ele. Não contive o choro quando vi aquele olhar frio e seco. Eu realmente tinha fodido tudo. A mão dele envolta no pedaço de lençol me lembrou do meu ataque. Vesti a calça e abotoei a camisa, vesti a jaqueta.

- Se você acha que eu sou louca, vou ser louca de verdade!

Coloquei a mão no bolso da jaqueta, tirei a 38 de lá e apontei pra cabeça dele. Ouvi batidas na porta.

3.

Esperei quase três horas pela ligação. O buquê de flores havia chegado, o bilhete me dizia para esperar por uma ligação, mas o telefone não tocou. Esperei enquanto assistia a um filme na TV aberta. Em meio aos longos intervalos comerciais, eu adormeci ao lado das flores jogadas ao chão. Quando tocou, pensei em nem atender ao telefone, tal qual era minha descrença de que algo pudesse mudar meu desapontamento, mas bocejei, limpei os olhos e atendi. Do outro lado ouvi uma voz desesperada, uma história estranha.

“Entendeu? E vem logo pra cá, por favor. Anota o endereço.” E eu fui.

Era o corredor de hotel mais imundo que eu já havia visto. Pilhas de lixo e jornais amontoadas nos cantos, flores mortas nos vasos ao lado das portas e um cheiro de mofo que cobria cada centímetro quadrado das paredes. Procurei pelo quarto certo por quase dez minutos, o papel com o numero anotado bem firme nas mãos. De um deles eu pude ouvir uma voz feminina que gritava. Era ali. Respirei fundo antes de bater na porta. Quando bati ouvi passos, um grito e vidro quebrando; pelo vão da porta, pude ver a luz se apagar. Por um minuto nada além dos grunhidos que os meus sapatos provocavam no assoalho velho logo embaixo de mim fez qualquer som. Bati na porta outra vez. Nada ainda.

- Bru? Eu sei que você ta aí, abre pra mim.

Ao invés de silêncio, ouvi sussurros. Tentei prestar atenção, apurar os ouvidos e entender o que se dizia lá dentro, mas o que eu ouvi foram passos fortes, a porta abrindo e em seguida vi uma mão me puxar pra dentro.

O quarto estava iluminado apenas pela luz dos abajures dos dois lados da cama. Olhei pra cima, a lâmpada do teto estava estilhaçada e soltava faíscas, o ventilador quebrado girava lentamente. Não podia ver quase nada ali, tateei as paredes e tropecei em alguma coisa. Ouvi passos dentro do quarto e parei, assustada.

- Psiiiiu…

- Quem está aí? No canto do quarto, ao lado do criado mudo, vi uma silhueta. Era ele.

- Bru!!! – Corri para abraçá-lo, tropecei em alguma coisa e caí. Ali no chão, em meio à minha dor, eu vi um corpo estirado. Cabelos armados, pele negra. Eu gritei.

- Cala a boca. – Ele disse me agarrando e colocando a mão na minha boca abafando o grito. – Fica calma, Laura.

Ele me ajudou a levantar e eu pude ver seu rosto. Estava pálido e assustado. O abracei.

- O que aconteceu aqui?

- É complicado. Eu ia pra sua casa, ela me trouxe aqui, me amarrou, me cortou, eu me soltei, ela apontou uma arma pra mim, você bateu na porta, ela foi atender, eu bati nela e agora ela ta aí no chão.

- Porra… E ela ta morta?

- Vai à merda, espero que não!

- Você já viu?

- Nem olhei pra ela. Ela jogou a arma pra cima quando eu bati nela e quebrou a lampada, não consigo ver nada.

- O que é isso na sua mão?

- Essa louca enfiou um pedaço de vidro aqui.

- Cara, como… como que isso aconteceu?

- Eu vim pra ca mandar essa vadia à merda antes de ir pra sua casa, aí ela pirou.

- Sei… Você ia pra minha casa pra quê?

- Eu ia… eu ia te pedir uma coisa.

- O que?

- Você realmente quer falar disso agora?

Ouvi um barulho no chão, uma tosse seguida de uma pancada seca. Olhei pra baixo.

- Ela ta acordando! E agora? – Eu disse.

- Não sei!

- Você disse que ela tinha uma arma. Cadê?

- Não sei… voou quando eu bati nela pra abrir a porta pra você.

- Acha agora!

- Vai, me ajuda!

Começamos a tatear pelo chão enquanto ela tossia e se contorcia ainda deitada. Ela começou a se levantar, se apoiando na cama.

- Bruno! Achou?

- Não, ainda não! Corre!

- Não consigo ver nada, ta difícil!

Ele gritou, eu ouvi uma pancada.

- Caralho, ela acordou. Corre, Laura! Acha essa porra!

Eu tateava no chão enquanto ouvia a briga deles e só via a silhueta dos dois em cima da cama dando tapas e socos um no outro. Eu tentava achar coisas no chão, mas só encontrava sapatos, baratas e poeira até que toquei algo frio. Coloquei os dedos em cima e agarrei.

- Achei!

- Atira!! – Ele gritou – Atira logo nela!

- Eu não to vendo! Porra!

- Vai logo!

Eu atirei. Ouvi o grito dele e tudo se silenciou. Eu havia errado? Quem eu acertei? Fui até a cama e coloquei a mão no lençol. Um liquido quente escorria dali.

- Bruno? Ele gemeu.

- Você acertou, amor. Ela morreu.

Eu podia ver. Ela estava jogada de bruços na cama com um buraco nas costas.

- A gente acabou de matar uma pessoa.

- Eu sei – Ele disse. Se levantou e me abraçou.

– Posso te perguntar uma coisa?

- Porra, o que?

Ele tirou uma caixa do bolso, se ajoelhou na minha frente. Pude ver pela luz do abajur que ele chorava.

- Quer casar comigo?

- Porra, a gente acabou de matar uma pessoa!

- Foda-se! Quer casar comigo?

- Claro!

Eu me abaixei e o beijei.

Publicado em: às 07/01/2013 em 4:10  Comentários (3)  

E amanhã? (Oi, 2013!)

São 6h51 do dia 2 de fevereiro de 2013 e eu só me lembrei agora que não fiz um post de fim de ano. Sinto que eu não vi o ano anterior passar. Talvez eu estivesse num coma imaginário, passei o ano no piloto automático. Preocupações, certezas, obrigações, um livro atrás do outro, um fluxo de sinal, um botão, médios, agudos, graves.

O inicio, o fim e o meio.

Só parei agora pra olhar a arvore de natal piscando. Só consegui parar e admirar o quanto eu sou ruim em montar arvores de natal, mas mesmo assim ela parece linda pra mim. O silencio da casa, a calma do vento que entra pela janela.

Parece que o ultimo ano foi um tapa na cara: rápido, barulhento e cheio de sentimentos embaraçados num grande impulso de raiva.

Cometemos erros, mas lições foram aprendidas.

Agora o novo ano começa com as mesmas obrigações, as mesmas velhas preocupações, os mesmos ombros pra se apoiar, um novo suspiro de amor em velhas companhias.

E a mesma arvore de natal, agora desmontada dentro da caixa em cima do armário, me lembra que já temos um novo começo. E amanha, o que me espera? Não sei, mas eu quero estar aqui pra ver.

Oi, 2013! Sente-se, fique a vontade, se comporte e não faça merda.

Publicado em: às 02/01/2013 em 7:26  Deixe um comentário  

O inferno somos nós

Saí do elevador e dei de cara com um policial militar. Ele me olhou e continuou falando no celular, distraidamente. Olhei para os dois lados. Todos os corredores desse hospital pareciam iguais pra mim. Decidi ir para a esquerda. Passei por quartos e pelo balcão de atendimento, mas não era isso que eu queria. No fim do corredor, em cima do vão da porta, eu pude ler “CENTRO CÍRURGICO”. Ajeitei a mochila nas costas e entrei.

O lugar era silencioso. Perguntei pela minha mãe no balcão ao lado da porta de vidro e me mandaram esperar no sofá azul. Me sentei e olhei ao redor. O silencio latente e o cheiro de morte eram disfarçados pelo barulho das teclas do computador da recepcionista.

Ouvi passos e olhei pro lado. O policial militar passou por mim e se postou ao lado da porta de vidro, olhando fixamente pra frente.

Ouvi o barulho do meu celular e olhei pra ele. “A mulher com um super guarda-chuva aqui tá me atrapalhando a ver se o ônibus vem, aff”, eu li. O barulho das rodas de uma maca contra o piso liso me fez levantar os olhos. Em cima da maca, um menino negro, desacordado e usando touca cirúrgica era levado por duas enfermeiras. O policial empurrou a porta de vidro e as enfermeiras o empurraram até o que eu supus ser a sala de operação e os acompanhou. Dez minutos depois ele saiu e voltou pelo mesmo corredor de onde havia vindo.

Baixei os olhos para o celular e respondi outra sms. Eu batia os pés no chão inquietamente e o barulho ecoava nas paredes do corredor vazio. Já estava há meia hora sentado na entrada da cirurgia e precisava demais de um cigarro. Achei as escadas e desci até o térreo. Passei pelo hall do hospital e, do lado de fora, acendi um cigarro olhando por dentro da neblina a garoa cair por sobre toda a calçada.

O segurança do hospital que parou do meu lado falava sozinho mexendo no bigode, uma mulher saia sozinha numa cadeira de rodas e um morador de rua me pediu um cigarro. “Não sustento vicio de marmanjo”, eu disse. Terminei o cigarro e voltei pro hall. O hospital é grande e eu estava com preguiça de subir as escadas, então entrei outra vez pelo elevador respondendo minhas sms atrasadas. Quando a porta se abriu, o policial militar, parado no mesmo lugar de antes, ainda ria falando no telefone celular, mas agora um homem estava sentado ao seu lado. Os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos sobre os olhos.

Voltei minha atenção para o celular enquanto voltava à porta da cirurgia. Me sentei. Não sei bem quanto tempo se passou, mas o policial voltou à sala acompanhado pelo homem e por um investigador. A enfermeira abriu a porta de vidro e, se dirigindo ao homem, disse:

- O Doutor quer falar com você.

O policial abriu a porta de vidro, deu passagem para o os outros dois homens, entrou e a fechou. Não pude mais ouvir o que se dizia lá dentro, mas ali do sofá, através do vidro, pude ver o rosto do homem ir de uma expressão confusa à um choro desesperado. Ele gritava, se contorcia. As lágrimas brilhantes que jorravam pelo seu rosto negro escorriam pela camisa. Eu não ouvia nada. Meu coração se apertou. O mundo parecia insignificante perto daquilo, defronte ao mais puro sofrimento humano tudo perdia a importância e se tornava pequeno.

Eu desci. A cada degrau em que eu pisava meu coração acelerava, a cada andar minha respiração se tornava mais intensa. Passei pelos quartos e pelas pessoas e as olhei todas no olhos. Olhos tristes e sem esperança, olhos revoltados e indignados. Passei pelo hall sem olhar para os lados. O segurança ainda falava sozinho ali na frente. Me sentei do lado do morador de rua, acendi dois cigarros, um pra mim e um pra ele.

Agora tudo fazia sentido.

Olhei para o meu celular, escolhi alguns nomes na agenda, escrevi “EU TE AMO” e enviei.

Publicado em: às 10/11/2012 em 16:05  Comentários (3)  

Pequena crônica sobre teus olhos tristes.

     Estou sempre com os urubus voando sobre a minha cabeça.

     Os dias passarão, o outono levará a última folha das árvores e eu ainda estarei com uma sombra estranha atrás de mim na rua, com alguém me esperando na esquina, me esperando na saída.

     Estarei ainda, no fim do outono, com a imagem de um olhar encabulado rondando meus devaneios noturnos; olhos ingênuos que encaram o chão e a ponta dos meus sapatos. Oh!, esse olhar, agora desapontado, não guarda mais a euforia contida na surpresa de um “olá!” repentino no meio da tarde.

     Que o outono se vá e esse olhar volte a conter aquela euforia, mesmo que a causa não seja a lembrança de outrora.

Publicado em: às 13/04/2012 em 15:43  Comentários (1)  

Esperando

     Eu estou aqui, sentado na poltrona com o pescoço tombado pra trás. As luzes da TV piscando iluminam freneticamente as manchas de infiltração no teto branco. E eu estou aqui, sentado na poltrona com o pescoço tombado pra trás. O som da TV enche a sala e não deixa que me ouçam do lado de fora. Eu tenho que gritar, mas minha voz sai baixa; mais baixa que a TV. E eu estou aqui, sentado na poltrona com o pescoço tombado pra trás. Meu peito dói. Um infarto, só mais um; talvez o último. E eu tento gritar, mas ninguém me ouve lá de fora. E eu estou aqui, sentado na poltrona com o pescoço tombado pra trás - esperando.

Publicado em: às 20/03/2012 em 17:53  Deixe um comentário  

Na varanda.

Eu posso voar, sei que posso.
Posso?
Eles passam cantando, gritando, bebendo e fumando e eu vejo tudo aqui de cima. As mulheres passam lá embaixo semi-nuas, com suas roupas curtas, decotes e sandálias. Uma delas acabou de sair do meu quarto. Daqui de cima eu a vi saindo do hotel e se juntar novamente à multidão lá embaixo.
Eu a acompanhei com os olhos durante todo o trajeto da calçada à multidão sentindo um tanto de dó. Eu menti meu nome, minha cidade e minha profissão pra não ter que me preocupar com o problema que seria se ela me encontrasse de alguma maneira depois de hoje. Eu queria apenas a essência da natureza casual daquele relacionamento breve. “Somos só dois adultos nos divertindo. O que te impede?”, eu disse. E não é mentira.
Ela foi embora como veio: sem importância. Eu não me arrependo de ter mentido pra ela, ela provavelmente também mentiu pra mim. Não sei se o nome dela é realmente aquele, nem sei se ela trabalha mesmo no que ela disse que trabalhava e também não sei se ela mora onde disse que morava, mas não sei se isso realmente importa. Do momento em que ela saiu pela porta nós voltamos a ser dois estranhos e isso é real, isso é o que importa de verdade. Eu não me vejo casado com ela, não me vejo tendo filhos nem me vejo envelhecendo junto dela ela. Mas talvez fosse ela.
E se essa mulher que agora sai do hotel 8 andares abaixo de mim com os cabelos despenteados e as sandálias na mão fosse a mulher da minha vida, meu amor eterno, a mãe dos meus filhos, e eu tenha jogado tudo fora por mentir meu passado todo com medo disso tudo? Se por acaso fosse ela, quantas oportunidades assim eu perdi da mesma maneira?
Eu sei, posso estar alcoolizado agora e o álcool é que me faz ter esses pensamentos profundos sobre a minha vida, mas é uma possibilidade.
Eu com meus cabelos cheios de confete, minha camisa rasgada e minha garrafa quase vazia ainda posso sentir a brisa suave no meu rosto e ouvir os ecos da música que vem lá de baixo.
Dou mais um gole da garrafa e cuspo o conteúdo da minha boca nas pessoas lá embaixo. Vejo o uísque com saliva flutuar no ar quase que em slow-motion até atingir algumas pessoas na nuca. Elas dizem coisas indecifráveis umas para as outras olhando ao redor procurando de onde veio o que lhes atingiu. Eu solto uma leve risada.
A mulher da minha vida pode ter saído daqui agora e eu posso nem saber o verdadeiro nome dela.
Mas dane-se, não é assim que um conto de fadas começa. A vida nem é um conto de fadas. Nem todas as histórias da vida real são perfeitas e nem sempre tem finais felizes, mesmo que isso seja o que todo mundo busca no fim das contas.
A maioria das pessoas tem mania de “disneyficar” as próprias vidas esperando o final feliz. Eu acho que todo mundo deveria se foder. Eu não quero inventar um final feliz pra mim. Eu sempre perco minhas chances de finais felizes por medo deles serem felizes de mentira.
Eu penso na minha casa com todas aqueles porta-retratos na sala com fotos de
pessoas felizes, sorrindo e vivendo para congelar momentos. Acho que a necessidade de congelar os bons momentos em fotografias é uma tentativa de negar o espaço que os momentos ruins ocupam na nossa cabeça, então a gente tem a tendência de endeusar a felicidade e criar um altar pra ela. É a preparação para o final feliz do nosso conto-de-fadas moderno, nossa comédia romântica pessoal de cada dia. Cada nova foto é o fim de uma dessas estórias. Aí então, enquanto os créditos sobem, a câmera mostra a estante cheia de fotos felizes e acaba na foto tirada na última cena da estória.
O altar da minha casa é cheio dessas fotos. O conto-de-fadas já chegou ao fim incontáveis vezes e recomeçou outra vez logo após dando lugar a uma nova foto. Eu sinto pena. Nem tudo é tão perfeito.
Meu pai não ama a minha mãe, que por sua vez o idolatra. Um amor não retribuído é como um jardim onde só cresce grama: inútil. Ele a trai desde que eu me lembro de poder amarrar os tênis sozinho. Eu sou o homenzinho da casa, posso saber dessas coisas. Ele sempre me contou com orgulho na voz sobre as outras mulheres e eu sempre ouvi com os olhos nos olhos dele, os ouvidos atiçados e a mente longe, lutando para controlar meus braços e não enforcá-lo, esmurrá-lo.
Se eu não tivesse mentido pra ela e a garota que lá embaixo olha pros lados sentada no ponto de ônibus me desse uma chance de ser o final feliz dela, eu nunca faria isso. Eu a amaria sempre do mesmo jeito que ela me amaria.
Aí agora eu me sento aqui na varanda, em meio a súbitos de vertigem, olhando os prédios ao redor – arquitetura fascista – tentando achar o momento exato nessa história em que eu me perdi.
Bebo mais um pouco da garrafa e me pergunto se posso voar. Olho lá pra baixo e tenho vontade de pular. Se eu caísse daqui agora, meu corpo acertaria pelo menos três pessoas e as mataria junto comigo. Isso certamente causaria uma comoção nacional e meu nome seria dito nos telejornais sensacionalistas das 8 da noite em todos os canais e eu penso seriamente no assunto. Eu ficaria famoso, afinal.
Algumas pessoas começam a olhar pra cima. Eu estou sentado na borda da varanda de pedra, com os pés balançando sobre as cabeças delas, com uma garrafa quase vazia em uma das mãos e um gesto obsceno na outra. Sinto minha cabeça girando. Olho pra baixo e mais pessoas olham pra mim, algumas apontam. Eu abro os braços e os balanço como se fossem asas. Eu posso voar, sei que posso.
Se eu pulasse agora eu ficaria famoso… “Estudante alcoolizado se joga de varanda de hotel e mata três pessoas ao atingir o solo.”
A queda desses 8 andares é suficiente pra me matar? E se eu não morrer e ficar paraplégico?
Eu tenho mais medo de ficar paraplégico do que de morrer, na verdade. Eu já li que paraplégicos quase sempre sofrem de disfunção erétil e como minha existência tem circulado ao redor do meu pênis nos ultimo anos, sem ele funcionando perfeitamente minha vida perderia o sentido, então eu teria que buscar outro sentido pra ela. Bom, talvez seja bom pular e ficar paraplégico, então…
Porra, a vida não precisa de sentido! É só um dia após o outro, assim, sucessivamente. Vai chegar um dia que o próximo não existirá e aí tudo acaba. Então eu dou um passo após o outro.
Falando nisso, eu não sei onde deixei meus sapatos. A porta da varanda está aberta, então eu me viro pra olhar para dentro do quarto. Do lado da TV eles não estão, nem perto da porta de entrada, nem na frente do banheiro. Talvez estejam debaixo da cama. Me esforço pra olhar, me viro, me desequilibro e quase caio da varanda. Por um momento eu me vejo caindo. Por um momento o vento bate no meu rosto e eu sinto a vida se esvair do meu corpo, mas consigo me segurar a tempo e voltar a me sentar na borda de pedra cinza e fria. Meu coração está acelerado. Algumas pessoas lá embaixo param pra me olhar. Eles acham que eu vou pular. Estou em evidência agora, preciso acalmá-los e dizer que não, que eu não sei voar. Junto uma das minhas mãos a minha boca e grito pra eles: “Tá tudo bem, EU SEI VOAR!”
Elas não me ouvem? Parecem não me ouvir e conversam umas com as outras e continuam apontando pra mim. Eu vou ficar em pé, talvez assim eles prestem mais atenção. Me apoio em uma das mãos e com dificuldade fico em pé no beiral da varanda, faço um movimento de asas com meus braços e grito pra eles, bem devagar: “TÁ TUDO BEM, EU SEI VOAR!”
Lá em baixo eles ficam horrorizados. Uma multidão se agita e começa a se amontoar na frente ao hotel, 8 andares abaixo, todos olhando e apontando para mim, para minha janela e para minhas belas asas verdes. Eu sorrio, estou em evidência agora.
Eu me sento de novo e procuro a garota. Não acho. Ela a deve ter ido embora. Agora ela nem deve mais estar pensando em mim e eu aqui pensando nela com um certo tipo de carinho e afeição digno de pena. Eu nem sei se aquele é o nome dela de verdade.
Eu puxo o cinzeiro mais pra perto e penso em acender um cigarro. Não posso. Estou parando de fumar, mas ainda mantenho um maço sempre no bolso. O cinzeiro tem o logotipo do hotel estampado nele. Eu sei que amanhã eu o levarei na minha mala como lembrança daqui. Se eu pedisse um igual na recepção eles me dariam, sem dúvidas, mas roubar é muito mais emocionante. Eu fico com o coração na boca, achando que vou ser pego, mas meu rosto se mantém frio e sem emoções enquanto minha boca diz coisas automáticas na tentativa de me tornar um ser confiável, coisas que um ser que nunca roubaria um cinzeiro de um hotel diria. Eu sempre consigo, mas sempre me sinto culpado depois. Mas, oras, é só um cinzeiro! Eles devem embutir o preço de um cinzeiro na diária do hotel já prevendo essas coisas, então eu só estou levando o que eu já paguei. Não adianta, eu sempre me sinto culpado.
Meus amigos não. Eles nunca se sentem culpados. Ou, pelo menos, são melhores que eu em não demonstrar.
Mesmo tendo dinheiro, a gente sempre leva alguma coisas do supermercado dentro da jaqueta. Coisas quase sem valor como chocolates, pacotes de bolacha, balas e garrafas de vodca baratas.
A gente não rouba por dinheiro, mas pela emoção, que pra mim nunca é muito boa. É como sexo casual. Ali, durante o ato em si, é tudo bom, mas sempre bate aquela culpa pós-coito, mas então eu lembro de uma musica que diz “Se tá no inferno, abraça” e sempre continuo; o roubo ou o sexo, tanto faz.
Lá em baixo luzes vermelhas piscam. Dois homens fardados descem do carro piscante e olham pra cima. Eles ainda acham que eu vou pular.
Eu tento gritar-lhes dizendo que não vou, mas engasgo. As palavras não saem da minha boca. Eu dou mais um gole do uísque na tentativa de fazer com que as palavras fluam. Sem resultado. Ainda estou engasgado, então balanço a garrafa em sinal negativo pra eles que não parecem entender. Parecem confusos.
Quanto será que eles ganham pra socorrer pessoas que querem pular de varandas de hotéis? Eu sempre achei que o dever deles era proteger as pessoas de outras pessoas, não de si mesmas.
Quanto vale uma vida? Quanto vale a vida de alguém que salva outra vida de seus próprios instintos suicidas?
Aliás, suicídio é crime? É um auto-homicídio, se for pensar. Mas se for crime, como eu pagaria por ele se estivesse morto?
Agora eles conversam com alguém uniformizado. É o uniforme do hotel. Eles apontam pra mim. Eu aceno pra eles. Penso em pegar um cigarro, mas não posso. Eu parei de fumar. Meu corpo pede um pouco de nicotina e o maço de cigarros me parece tão atraente e delicioso, mas eu me controlo. Passo as mãos no rosto e suspiro. Se eu fumar agora, pode ser meu último cigarro. Seria poético.
Mas que merda eu estou pensando? É claro que eu não vou pular daqui.
O efeito do álcool já está passando. Eu não quero ficar sóbrio. Tomo mais um gole da garrafa e sinto uma tontura. É isso, bem melhor agora…
Lá embaixo umas 70 ou 80 pessoas me olham. Todas hipócritas. Vieram pra cá com a intenção de beberem, transarem, se drogarem e agora fingem se importar com a vida das outras pessoas. Hipócritas.
Eu nem sei o nome deles. Mesmo que eles me dissessem, eu não saberia. Eles mentem os próprios nomes. Eu não sei o nome dela. Onde ela foi mesmo? Eu me viro e olho a cama vazia, desarrumada, e me lembro que ela foi embora. Foi embora há quase uma hora, mas eu já sinto falta dela. Ela poderia ser o amor da minha vida, mas por que amor da minha vida não me diria seu nome real?
Puta.
Eu ouço batidas na porta. Aos poucos elas se tornam mais rápidas e vigorosas. Eu ignoro. Ouço chamarem meu nome. São meus amigos. Eles estavam em outros quartos, não deveriam estar aqui. Deveriam estar nos outros quartos, mentindo os nomes e roubando cinzeiros. Eles não deveriam estar aqui batendo na minha porta.
Lá fora eles gritam. “Abre a porta! O que você acha que tá fazendo, cara?! Abre a porta!”. Eu ignoro. Bebo mais um pouco da garrafa e resisto a um cigarro.
Queria que minha mãe estivesse aqui para me dizer pra não fumar, pra não beber e me dizer que é perigoso me sentar pra beira da varanda, depois me colocar pra dormir e acariciar meus cabelos até eu pegar no sono.
O barulho das batidas na porta começam a me dar raiva. TOC-TOC-TOC-TOC-TOC-TOC-TOC.
“Vai se foder, vai embora!”, eu digo. As batidas cessam. Não quero ninguém me atrapalhando.
Lá embaixo um grande caminhão chega e descem bombeiros dele. Em alguns minutos eles começam a esticar uma escada pra me alcançar. A escada não deve chegar nem na metade do caminho, o que eles tão pensando?
“Vai se foder, vai embora!”, eu digo. “Me deixa!” E atiro a garrafa de uísque no caminhão.
Lentamente a escada vai se afastando e todos os bombeiros voltam ao caminhão. Eles cercaram a área com fitas amarelas e as pessoas se amontoaram em volta delas olhando e apontando pra mim.
Que merda, como eu preciso de um cigarro!
Nessa altura nem eu mesmo sei seu vou pular ou não. Eles estão me fazendo acreditar no meu suicídio, mesmo eu sabendo voar.
Eu sei voar! Eu balanço os braços como asas novamente e penso nela, na garota que foi embora. Eu fecho os olhos e sinto a pele dela outra vez, mas batidas na porta me tiram do meu transe.
Eles dizem ser da polícia e me mandam abrir a porta.
“Vai se foder, vai embora!”
Ouço barulho de chaves e um deles entra pela porta. Provavelmente o hotel os cedeu as chaves reservas para o caso de eu não abrir a porta.
O homem gordo se aproxima, fardado, arma na cintura, com esse bigode ridículo que me dá vontade de vomitar e para na porta da varanda. Me diz pra reconsiderar.
“Reconsiderar o quê?”
Me matar. Eles ainda não entenderam.
“Eu sei voar!”
Ele coloca o pé direito dentro da varanda na menção de ficar mais perto de mim, mas eu não quero ele aqui. “Vai se foder! Não chega perto! Vai embora!” Mas ele não me ouve e continua a investida. Eu não tenho mais a garrafa pra me proteger. Onde está a garrafa? Eu a procuro com uma das mãos, mas só encontro o vento. Eu joguei a garrafa no caminhão lá em baixo. Que merda. Ele continua se aproximando. Eu vejo meus amigos atrás dos policiais na porta do quarto. Ele está a um metro de mim, menos que isso. Ele estica o braço pra tentar me agarrar. Eu não posso deixar. Ele me agarra pelo braço e eu luto pra me desvincilhar dele, mas é em vão, ele é muito mais forte que eu. Voam confetes do meu cabelo. “Me deixa! Me deixa cair da varanda com confetes no meu cabelo! Vai embora!” Mas ele não vai. Ele não me solta. Eu estico a mão e encontro o cinzeiro. Eu o pego e acerto o gordo na cabeça. Quebrou o cinzeiro e agora? Eu ia roubar o cinzeiro e agora o cinzeiro está quebrado. Numa luta contra a dor, o gordo se revira pela varanda com a mão na testa e esbarra em mim com essa bunda enorme. Eu me desequilibro.
Agora eu sinto o vento no meu rosto, suave e rápido. Abro os olhos e vejo os andares do prédio um por um passando por mim. VUFT! VUFT! VUFT!
Sabe aquela história de que a nossa vida passa como um filme antes de morrer? Não é verdade. Agora estou eu em queda livre, a menos de um metro de atingir o solo, e meu único pensamento é: “Por que eu não fumei meu último cigarro?”
Sinto meu corpo batendo e num rebote voltando suavemente para o ar. Não é a dor que eu esperava.
Maldita seja a cama elástica dos bombeiros.

Publicado em: às 07/02/2012 em 0:38  Comentários (4)  

A história que inspira a estória.

A agulha arranha o disco. O som sai pelas caixas de som.

Não me lembro onde eu me perdi. Não sei nem se estou mais perdido no fim das contas.
Sinto falta da minha vida há uns 4 anos atrás de uma maneira nostálgica, velha, mofada. E olha que nem faz tanto tempo assim, mas me fazia bem.
A vida era livre de responsabilidades, garotas de 15 anos eram inteligentes, a bebida era barata, diversão era de graça. Mas agora a noite nessa cidade é mais escura, mais quente, efervescente.
A gente não toma mais qualquer coisa e nem precisa contar as moedas pra comprar um maço de cigarros, mas eu sinto falta da simplicidade.
Hoje eu estou no piloto automático. Eu tenho hora pra acordar, não tenho hora pra dormir. Eu me estresso e me reviro na complexidade da minha rotina simples. As pessoas na rua, no ônibus ou no bar não são mais interessantes e eu não invento mais estórias sobre eles; não tenho mais tempo pra isso. Eu ando com meus olhos bem escondidos atrás dos óculos escuros e já decorei os tijolos das calçadas por onde eu passo todos os dias.
Há 4 anos atrás eu não tinha um passado que poderia voltar à tona de repente.
Eu não terminei o livro porque não lembrava mais como era. Não lembrava mais o movimento que os cabelos dela faziam com o vento, não lembrava mais o cheiro do cigarro de cravo que ela fumava ou como os olhos dela me faziam sonhar acordado.
Eu a vi e nós agimos como dois estranhos depois de 4 anos. Depois de tudo eu nunca achei que nós dois perderíamos a essência que nos fez quem somos hoje. Eu vi nos olhos dela que ainda tem muito de mim ali.
Eu sou parte de você, você não é parte de mim.
Não mais.

O lado A do vinil do The Cure terminou. Vou virar o disco.

Na varanda, eu olhando pra longe com ela do meu lado. Eu tinha esquecido como era. Naquele momento nós estávamos sozinhos e ela me perguntou como ia o livro. Eu disse que tinha desistido de escrever. Ela disse “Que pena, é uma boa história. A melhor de todas.” e eu discordei. Afinal eu já vivi histórias melhores nos últimos 4 anos. Talvez não tão longas, mas tão boas quanto. De repente o namorado dela voltou pra varanda com um violão na mão cortando a nossa conversa. Me pediu pra tocar e eu pude olhá-lo de novo e tive a impressão de que ele é uma versão mais robotizada de mim. Se diz escritor romântico. Diz que bebe e fuma maconha pra poder escrever me disse algumas influências. Ele é um cara inteligente, de bom gosto, mas não é intenso. Tirou o celular do bolso e me vez ler algumas coisas dele. Achei superficial, infantil e sem alma, mas eu também já fui assim.
Durante toda a conversa cult eu senti que ela me olhava nos olhos enquanto acariciava a barriga dele. Eu evitei os olhos dela o máximo que pude. Peguei o violão e toquei a primeira nota de “walk on by” e percebi ali que não sentia mais nada. Toda a paixão adolescente intensa, irracional e sem sentido era só uma boa memória. Agora é só uma história.
A melhor de todas.

Acabei de ouvir o último acorde de “Close to me.” A agulha arranha o disco e ele para de girar.

Publicado em: às 23/01/2012 em 3:42  Deixe um comentário  

Discurso sobre a estupidez.

A minha geração me incomoda. Não sei se vocês perceberam, mas a gente é uma geração inútil. Não que as outras gerações não tenham tido sua cota de babaquices, mas a nossa tem o maior numero de gente estupida por metro quadrado dentre todas as outras gerações. Talvez pelo fato de que a gente não tenha pelo que lutar.
A geração dos meus pais lutou por liberdade. Eles queriam votar, queriam dizer o que bem entendessem, então eles lutaram e conseguiram. A geração depois deles foi transitória, mas eles usaram muito bem a herança que receberam da geração anterior e mantiveram a ordem pelo tanto que conseguiram, mas acabaram fazendo merda no final, então a geração seguinte teve que arcar com as consequências. Eles saíram às ruas e tiraram o emprego o homem mais importante do país. Eles lutaram e conseguiram. Até aí tava tudo se encaminhando, mas eu penso: A revolução francesa terminou depois da queda da bastilha? Não! Depois disso teve uma coisa chamada “O Terror”, e foi quase isso que a geração seguinte teve de suportar. Agora é a nossa vez. E o que a nossa geração tá fazendo? Nada. A gente tem a impressão de que não tem pelo que lutar, mas é mentira. A nossa luta talvez seja maior do que qualquer outra luta já vista por aqui. A nossa luta é contra nós mesmos. Na real é uma luta contra a nossa própria alienação.
A nossa geração se acomodou pela sensação de segurança que as gerações anteriores nos proporcionaram. Hoje nós somos livres pra escolher quem nos representa e, principalmente, somos livres pra dizer e pensar o que quisermos. E essa é a maior conquista que a gente poderia ter, mas o modo que nós a estamos usando é questionável.
As pessoas estão ficando cada vez mais burras e estúpidas a cada dia mesmo com uma infinidade de informações a nossa volta. Tá tudo tão fácil, a internet é infinita, cheia de possibilidades além de facebook ou pornografia, mas a gente não enxerga. Ninguém mais lê, ninguém sabe manter uma relação social pessoalmente.
A bola da vez é salvar o mundo. É o ideal master, bio-sustentabilidade pro planeta se manter vivo, mas de quê adianta o planeta se manter vivo se a gente morre aos poucos? É tão grande a mania do “reciclável” que eu tenho a impressão de que as pessoas estão se tornando recicláveis também.
A sociedade nunca vai se tornar algo que nossos ideais utópicos nos fazem sonhar. Não existe essa coisa de respeito mútuo, nem de amor ao próximo porque seres humanos fracassam no que se diz respeito à amar.
Eu não falo do amor romântico dos contos de fada, mas sim o de amar as pequenas coisas, as coisas importantes, mas o ser humano é essencialmente fútil.
Ok, não vou generalizar, existem pessoas que não se enquadram no que eu disse anteriormente, mas não são muitas.
Também não quero parecer um comunista babaca – cujo exemplo eu tenho em casa e chamo de “pai” – e dizer que essa estupidez é culpa da midia, mas em certa forma é sim. Os jovens de hoje tem muita merda empurrada garganta abaixo pelo simples fato de não terem nada mais pra comprar. Coisas boas não ficam expostas na vitrine, infelizmente. É tanta novela, tanto BBB, restart e Michel Teló por aí que as pessoas ficam com preguiça de serem mais profundas que isso. É fácil receber tudo mastigado.

De vez em quando eu gostaria de ser mais burro do que eu sou pra não entender certas coisas. Gente burra me parece mais feliz.

Publicado em: às 04/01/2012 em 19:15  Comentários (2)  

2011 no fim. E agora, José?

Eu mau escrevi esse ano. E quando eu escrevi, meu assunto foi o mimimi de sempre. Acabaram de me perguntar, agora, há 5 minutos, quem é essa garota que eu sempre falo por aqui. Me perguntaram se ela existe mesmo e eu não soube responder. Sim, ela existe, é feita de carne, osso e o sorriso mais lindo do mundo, mas ao mesmo tempo ela é uma ilusão. É uma miragem falando comigo. E, agora, por mais que eu tenha tido um exemplo recente do quão incrível e encantadora ela é, eu decidi deixar a maré levar tudo aquilo.
Eu escrevi no post de fim de ano no ano passado que a minha vida tinha sido uma comédia/pornô com uma trilha sonora legal e não se isso mudou esse ano. Eu continuei na mesma dança babaca com esperanças de que ela aparecesse do nada e me desse um motivo pra parar, mas agora eu não sei mais. Talvez eu pare por mim mesmo.
Não que eu tenha desistido, só que agora é com a maré. Se ela resolver trazer de volta o que levar, ótimo, mas eu não vou ficar esperando na praia.

Nesse ano eu trabalhei pra caralho, fiz o que eu gosto. Foi Rock and Roll, blues, foi intenso. Conheci gente que não vai sair tão rápido da minha vida de merda e me sinto feliz por isso. Tava tudo tão cinza sem vocês… Eu só tenho a agradecer.
Eu tenho tendencia a foder com tudo, mas não quero foder com tudo o que sobrou do que eu conquistei esse ano. Mas será que eu perco meu ~CHARME~ se eu ficar responsável de uma hora pra outra?
Eu ouvi de uma garota pouco tempo atrás que eu sou “o filha-da-puta mais legal que ela conhece.” Levei como um elogio, principalmente depois de ter passado a noite com ela e, no fim, terminar dizendo pra ela o quanto a outra é incrível.
Babaquice.

Se bem que eu não quero escrever aqui hoje. Então, faço das palavras da Karine, as minhas. Ela me mandou esse texto hoje e eu acho que é de bom gosto postá-lo no fim de ano no lugar das mensagens babacas “feel good”.
Lá vai:

“É tudo tão vazio, a vida tem sido tão vazia, os dias vazios, os sentimentos vazios, as esperanças e os sonhos também tem sido vazios !
Eu tenho estado vazia. Vazia de amor, vazia de afeto, vazia de empatia, vazia de fé e de esperanças. Vazia de planos. Um ser humano vazio, não tem o menor sentido de vida !
Devemos nos alimentar de todas essas coisas a quais eu citei para permanecermos vivos, e não cairmos naquele clichê de : “Existe uma diferença em existir e viver”, o que de fato não deixa de ser verdade, nós seres humanos fomos feitos pra desfrutar de coisas que os outros seres são desprovidos, somos dotados de racionalidade, e isso nos faz aparentemente superior. Mas, o ser humano mesmo dotado disso, continua vazio !
Continuamos nos importando com o dinheiro e os bens materiais em geral, continuamos a olhar para rostos e corpos belos, participamos de toda essa hipocrisia generalizada ! Ninguém acorda cedo pra olhar o sol, ninguém repara no brilho das estrelas, passamos por anjos caídos na rua e nme nos importamos com isso, não vemos os pequenos detalhes da vida. Continuamos cheios de buscas a tesouros perdidos, e vazios de coisas que importa, vazios de emoções, vazios de sensibilidade, vazios de enxergar as pequenas coisas.
Andamos com pressa, trabalhamos, estudamos, pressa, pressa ! Não vemos o mundo,não reparamos os detalhes ! O ser humano é um ser dotado de acúmulo de lixo, isso sim.
E quem fala que o ser humano vale mais que um cachorro na rua, que é mais racional e inteligente, não sabe a mentira que está contando !
Quem disse que um cachorro precisa acordar no horário determinado, fazer as coisas no tempo determinado, quem disse que um cachorro precisa de roupas caras, sapatos, e comidas luxuosas, quem disse que ele precisa de viagens, Faculdades ou empregos bons pra ser feliz?
Ele acorda agora que quer, come o que tiver, se contenta com o que está ali, se diverte com quem passar, sem se preocupar se quem passa é um rico ou um pobre, o cachorro sim compartilha o pão, e compartilha sentimentos, não é a toa que é denominado o melhor amigo do homem !
Pois é, a que ponto chegamos ? Os seres entre eles não se sensibilizam uns com os outros !
Enquanto 1% da população mundial retém toda a riqueza do mundo, os outros 99% a escória lutam pra ver quem ganha mais, num jogo sem fim, sem limites e sem regras !
É, eu pelo jeito vou continuar sendo pessimista, e odiando o ser humano. Por que o ser humano é um animal podre e porco, é um animal que depende de bens maiores pra ser feliz !
Caralho, eu daria TUDO no mundo, pra estar em uma ilha com alguém legal, ouvindo uma infinidade de músicas, falando sobre várias coisas, vem o sol nascer e o sol se pôr ! Daria tudo pra estar longe de São Paulo, desse trem e metrô lotados, dessa gente estressada, dessa vida de brigas com o Judiciário, desses advogados chatos, daria tudo pra não ter que acordar no horário determinado e me preocupar com a hora e como vou chegar em casa, adoraria andar por ai sem rumo, sem me preocupar com o cara estranho que vai estar na esquina, daria TUDO pra ficar longe, pra sumir, pra esquecer Faculdade, essa bosta que só vai servir pra me estressar mais futuramente, pra esquecer serviço, esquecer TUDO ! T_T
Ciclo maldito !
Mas, não.
Eu sou humana e generalizando por mais que pense dessa forma, eu continuo jogando como todos os humanos, por que é conveniente que a vida seja assim!
Eu continuo tendo que acordar todos os dias o mesmo horário, continuo tendo minhas dores de cabeça que um dia vão me matar (quase já mataram né) , continuo tendo os meus estresses, minhas oscilações de humor, continuo tendo essa vida medíocre e pacata, por que só tem um sentido, a felicidade, mas ela é inalcançável ,nos contentemos com momentos felizes e passageiros, contentemo-nos com uma conta bancária gorda, com pessoas bonitas, bebidas, cigarros,e coisas fúteis !
Continuemos passando por cima de seres abandonados nas ruas sem nos preocuparmos com eles, continuemos buscando um dinheiro que não temos, pra ter um status que não temos pra agradar que não gostamos ! Isso é medíocre, mas, mais medíocre do que isso é acreditar que o ser humano é bom e não se importa com isso !
Tem muita mais coisa legal individual né ? Isso é egoísmo ! Sim, somos seres super dotados de egoísmo, quero ver você tirar seu salário preparar umas coisas e sair distribuindo ai na rua, quero ver você sair do conforto da sua casa em uma noite fria e doar um dos seus cobertores de urso pra alguém que se contentaria com um lençol! A raça humana é realmente destrutiva, destruímos nossos próprios irmãos, destruímos a nossa descendência ! Sabe o que é fútil, é bem fútil ficar pensando na Usina que vai ser construída do outro lado do Brasil, ou no estuprador que está solto ai ! Vamos abrir os olhos para o nosso lado ! Para a pessoa largada no ponto de ônibus logo cedo, para nossos irmãos que sofrem de doenças como a depressão, vamos pensar naqueles 4 reais usados para saciarmos nossos vícios, ou no tempo que gastamos a toa pagando de bons moços na internet fingindo que o mundo é cruel, e vamos levantar e mudar essa porra !
Ser humano, ser maldito, raça cruel ! “

Karine Almeida, em toda sua alma, rebeldia e consciência.

Publicado em: às 30/12/2011 em 4:47  Deixe um comentário  
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