Nos meus braços

Ele chegou aqui feliz. Com a cabeça sem cabelos, o corpo pequeno e a pele flácida. Era gordinho e tinha profundos olhos castanhos. Os pais diziam que não era sorridente, que era rabugento e encarava as pessoas, que não gostava de estranhos, mas correu para mim com um sorriso maior que seus braços abertos.

Sei que não me conhecia e que, para ele, me ver era impactante. Ele tão pequeno e eu tão grande. Com pesados passos na areia, ele correu até mim, descontroladamente feliz. Andou ao meu redor sem medo, brincou comigo, sorriu para mim e eu sorri para ele. Ele me acariciava e me abraçava, tomava de mim a felicidade que eu dava de bom grado, sem esperar algo em troca. Trocamos a felicidade como qualquer criança da sua idade faria. Mas eu sou velho. Sou velho, impaciente, imprudente e imprevisível. Ao contrario da mãe, ele não tinha medo de mim. Ela o tirou dos meus braços dizendo que eu era perigoso. Eles voltaram para o lugar de onde vieram e eu o observei ali à sombra do guarda-sol.

Não estava entretido com os quitutes, com o camarão com limão ou com o suco gelado.  Ele me olhava ir e vir, passar de um lado para o outro, subir e descer. Eu olhava para ele e ele olhava para mim.

A mãe conversava com uma amiga. Falavam de outra pessoa, alguém que não disseram o nome, mas ambas sabiam quem era. Ao som da música do quiosque, elas falavam alto, riam do corte de cabelo, das estrias e do cheiro da merda da outra pessoa que infestava o banheiro do escritório. Ambas com os pés na areia, os seios caídos dentro dos maiôs, as bundas flácidas quase se desmanchando nas cadeiras e a cabeças sob o sol de fevereiro.

Olhei para o céu e ele era limpo. Meu amigo era limpo, sem graça, distante. A dança das nuvens era lenta, a dança do vento era sutil: fazia as palmeiras dançarem um triste samba, daqueles que se dança devagar, sozinho, de olhos fechados.

Dancei com as palmeiras, me acalmei. Minhas mãos grandes afagavam a areia, a margem era minha e eu dançava com ela. Eu me afastei, mas continuei a olhar o garoto. Ele olhava para mim. Me queria tanto quanto eu o queria.

Mas ele agora comia os camarões. Salpicava suco de limão, balançava-os no ar e jogava à boca os crustáceos um depois do outro. Mastigava rapidamente, poucas vezes, engolia e olhava para mim enquanto sugava o suco de maracujá do copo por um canudo em forma de espiral.

Eu quis desviar o olhar, não era certo desejar uma criança. Não seria a primeira, mas não era certo. Elas são tão frágeis, tão indefesas. Se eu o agarrasse, ele não sairia dos meus braços. Quis me afastar, mas não pude. Ele não se movia e a mãe ria. A mãe ria com a amiga, mexia os dedos na areia, balançava as pernas e, com a cabeça sob o sol de fevereiro, não temeu as águas de março que ameaçavam cair do céu. Ela não percebeu que meu amigo limpo zangou-se comigo, soube dos meus desejos infames e ficou cinza, nos ameaçou. Ele quis afastar o garoto de mim, quis fazê-lo ir embora. Meu amigo limpo era sujo de rancor. Tirava de mim e usava contra mim o que me roubara um tempo antes.

Aquele menino olhava para mim. Aquele menino me queria tanto quanto eu o queria. Eu dançava e ele dançava comigo – com os olhos, mas dançava.

Aquelas pernas gordinhas sustentaram o pequeno corpo para descer da cadeira depois de um impulso do quadril. As pessoas ao redor guardavam suas toalhas, tiraram seus óculos escuros e fechavam os guarda-sóis. Elas iam embora, mas ele corria na minha direção, sorrindo.

A mãe também sorria, bêbada, para a amiga. Ria da colega de escritório, ria dos pelos pubianos dela.

O menino vinha para mim.

Algumas gotas caíram do meu amigo, tentaram alertar a mãe, tentaram alertar qualquer um, mas o menino já me abraçava. Tinha as pernas cobertas, logo depois o quadril e os braços. Ele nadava mal. Nadava mal e gritava, mas agora me abraçava para sempre. Quanto maior eu ficava, menor ainda ele era. O abracei e o levei comigo.

Eu já levei homens maiores, levei mulheres, navios e casas. Já engoli cidades e já engoli aldeias. Sou lindo e atraio os olhos menos ingênuos, mas me apaixonei por aquele menino e apenas o quis por capricho. Dentro de mim, debaixo das minhas ondas, envolto pelo meu corpo azul e verde, sem luz pelos pobres olhos fechados, ele sentia frio, tentava chamar pela mãe, mas eu sempre sou mais forte. Com carinho, o abracei e o trouxe comigo para longe dos olhos curiosos, das pessoas que gritavam por socorro.

A mãe olhou para o lado, olhou para mim, mas nada mais podia fazer.

O menino estava comigo.

No fundo.‏

No fundo.

‌‌

No

fundo

.

Published in: on 03/06/2014 at 9:35  Deixe um comentário  

Um tango bêbado depois da chuva

Hoje eu tirei do chão os colchões que até ontem usávamos para que o som do nosso sexo não acordasse o prédio todo. Tirei das gavetas as suas roupas, do banheiro a sua escova-de-dentes e da minha casa qualquer coisa que lembrasse você. Ontem, depois de me bater, você andou até o elevador e, com lágrimas e rancor nos olhos, deixou com que ele fechasse as portas na minha frente. Eu sei que seria romântico se eu corresse pelas escadas, te encontrasse no térreo e, com o coração na mão, te pedisse desculpas, mas simplesmente voltei ao apartamento, me sentei à mesa e bebi durante a tarde toda. Bebi e percebi que a sua lembrança a me atormentar fazia mais barulho do que o rádio ligado. Eu sou pequeno, eu sei. Sou baixo, fraco, ranzinza e infeliz, mas perto de você eu me sentia menor ainda. Acho que, quando me dei conta disto, eu comecei a beber como celebração pela sua ida.

Ergui o copo e brindei à sua fuga, à sua voz que bradava mais uma vez não querer mais ficar. Você é tão forte e tão grande, Beatriz. Você sabe como fazer o mundo cair aos seus pés, mas não admitia mais estar aos pés dele.

Você se lembra, eu sei, que quando nos conhecemos eu já era um velho quase careca na flor dos meus 32 anos e você comemorava seu décimo nono aniversário. Vestia uma saia jeans, chinelos de dedo e uma regata branca sem sutiã por baixo. Você me olhou e riu de pela minha precoce falta de cabelos. Andou até mim e me perguntou o que eu estava fazendo ali, me perguntou qual das suas amigas era minha filha; menti que esperava um amigo. Eu não tinha amigos, Beatriz. Lá naquela esquina, naquele bar sujo com karaokê, eu me sentava em todas as noites de quinta feira e observava as meninas que, assim como você, comemoravam as passagens das bodas da adolescência que juravam que duraria para sempre. Pra mim, Beatriz, você era igual a todas elas antes de se sentar do meu lado e dizer que não aguentava mais ficar em pé. Eu te perguntei se tinha bebido demais e você não conseguiu responder. Eu cuidei de você a noite toda sem pedir nada em troca além do seu telefone.

Quando você decidiu ser atriz, eu sorri para você e perguntei se tinha certeza daquilo. Quando seus olhos ainda eram pudicamente abertos à sua realidade, você dançava bêbada e recitava poemas, textos curtos e ao final dizia que me amava, mas você mudou, Beatriz. Você mudou e seus olhos mudaram com você. Seu olhar por mim perdeu a paixão, perdeu o seu lugar em mim por alguns momentos.

Quando, bêbada, você me confidenciava seus sonhos e as dores pelas suas outras paixões, eu te amava. Naquele bar sujo, naquela esquina empoeirada e com cheiro de óleo diesel queimado você era a minha menina; e você dançava pra mim. Aquele era o nosso lugar. Sentados na calçada a esperar passar a madrugada com seus passos lentos, nós éramos felizes. Você com suas sandálias de dedo e eu com meus sapatos lustrados a cuspe, éramos felizes ou mais que isso. Éramos tão felizes que eu resolvi te levar para morar comigo neste apartamento que agora você renega. Você entrou aqui tímida, com uma mala pequena pendurava nos ombros. Você trouxe as poucas roupas a que ainda tinha algum tipo de afeição e deixou todas as outras para trás, agora você era minha. Suas roupas juvenis, seus cabelos molhados, suas mãos pequenas e sua virgindade eram minhas, Beatriz. Quando você saia do banho enrolada nas toalhas, eu te beijava e você me aceitava de coração e pernas abertas. Eu não esperava menos do que isso, Beatriz. Eu te sustentava, te dava amor e pagava suas aulas de teatro mesmo sem acreditar em você. Eu não acreditava no seu talento, não acreditava que um potencial artístico que nunca florescera em mim pudesse surgir em você que era pequena demais, era linda demais. Por mais que seus seios fartos e seu quadril largo dissessem o contrário, pra mim você ainda era uma menina – a minha menina.  E era assim que eu te chamava quando você, suada, retornava ao apartamento depois das aulas de teatro: minha menina.

Você retornava das aulas com um brilho no olhar que eu nunca vira quando olhava para mim. Seu sonho começara a se realizar lentamente, mas eu era surdo para com ele. Entenda que, para mim, você não era capaz, Beatriz, e quando eu não compareci à estreia do seu primeiro espetáculo não foi por mal, foi para não ver a catástrofe acontecendo. Mas você me superou, minha menina. Você voltou mais feliz do que era possível estar. Você voltou me dizendo que mesmo que eu fosse não conseguiria acento algum. A peça era forte e a minha menina era a estrela dela, mas eu não me assustei. Para mim aquela carreira era passageira, seu sonho era passageiro assim como foram seus amores antes de mim. Assim como sua virgindade havia sido minha, seus sonhos passageiros também seriam.

Todos os dias de manhã eu saía para o trabalho e você ainda dormia profundamente. Era lindo te ver tão frágil e adormecida e era assim que você ficava mais linda. Os textos rabiscados no criado mudo não faziam sentido, seus espetáculos futuros não tinham sentido. Enquanto você dormia, Beatriz, eu era seu protetor.

Enquanto, no silencio latente que surgia na nossa ligação casual no horário do meu almoço, eu ouvia os cachorros latindo ao fundo, eu te odiava e perguntava onde você estava. Você me dizia que estava ensaiando, que o próximo espetáculo seria ainda melhor e mais forte. Eu mentia estar feliz por você, mentia ter uma satisfação pelo seu sucesso, mas esperava sua derrota como quem espera por um trem que se atrasou. Você pertencia à mim, não aos palcos, Beatriz, mas para te ver feliz eu continuava a pagar suas aulas sem um único dia de atraso. Você sorria e fazia meu mundo, antes cinza, ser colorido.

Quando, em casa, você me afagava com os carinhos mais densos e amorosos do mundo, eu te amava. Eu era como um gato indefeso e rude no seu colo: Você afagava meus cabelos e esperava por um ataque súbito. Eu dizia não saber das suas coisas, dizia não ter interesse por entender o que você estudava, mas quando você, cansada dos ensaios do dia, adormecia, eu lia seus roteiros e não acreditava que você fosse capaz de realiza-los, mas – claro – não te dizia isso; eu gostava de te ver feliz apesar da minha infelicidade e do meu ciúme.

Um dia depois da sua segunda estreia você choraria pela minha segunda ausência. Apesar das minhas desculpas, eu não senti nada além do alívio de não precisar ver seu segundo iminente fracasso. Sentado naquela cama a te ver chorar pelo meu desinteresse eu era maior que você, Beatriz, e tive que disfarçar meu sorriso.

Alguns meses depois você parou de me pedir dinheiro, mas eu não percebi. Meu lado esnobe não percebeu quando você começou a ganhar o próprio dinheiro e começou a deixar de precisar de mim. Seu espetáculo era um sucesso e eu soube disso no trabalho. Ouvi de colegas que eu deveria estar orgulhoso de você, que seu nome e sua foto estavam no jornal. Quando eu te vi naquelas páginas eu quase não te reconheci. Para mim, você ainda era uma pequena menina, a minha menina, que todas as noites adormecia ao meu lado enquanto afagava meus cabelos. Quando cheguei em casa e joguei no seu rosto as páginas do jornal, minha raiva não jogava seu sucesso contra você, mas a minha própria incapacidade em te admirar. Você me disse que eu deveria estar orgulhoso de você, que eu deveria saber que tudo isso era minha responsabilidade. Eu te fiz crescer e não percebi, Beatriz, e me sinto envergonhado por isso.

Você saiu de casa e eu me vi sozinho outra vez. Eu te ligava e você não atendia, mas eu precisava de você, precisava da minha menina, nem que fosse apenas a sua presença silenciosa do outro lado da linha. No sábado seguinte eu fui ao teatro. Comprei o ingresso e me sentei na antepenúltima fileira para que você não me visse. Eu esperei sentado. O terceiro sinal demorou a tocar e a espera me corroeu por dentro. Quando você entrou em cena, não era você. Sob os holofotes, maquiada, você era grande, Beatriz. Você me fez chorar. Eu chorei lágrimas de vergonha mesmo nas partes em que você não estava presente em cena. Eu chorei pela minha calvície precoce, pela minha falta de espontaneidade e pela minha descrença por você. No palco você me mostrou que eu era menor que você, minha menina. Suas mãos eram minhas, mas o seu sucesso era apenas seu. Quando as luzes se apagaram, o pano caiu e o espetáculo terminou, eu escrevi uma mensagem no ingresso e pedi para te entregarem.

Dois dias depois você bateu na porta do apartamento que não era mais meu, era nosso. Bateu na porta e, quando eu abri, você olhou o ingresso em suas mãos e leu “Parabéns, minha menina” em voz e choro altos. Finalmente eu acreditava em você, Beatriz. Eu acreditava em você, mas isso apenas fez meu ciúme aumentar.

Você não dependia mais de mim, ganhava mais do que eu e seu nome estava em todos os jornais do estado. Mas, que merda, você me amava, Beatriz. Você amava um velho calvo, gordo e com pau pequeno. Por que você me amava? Eu não entendia. Eu já não amava mais você, mas nos casamos mesmo assim naquela cerimônia com meus poucos colegas e seus muitos amigos. Eu chorei quando te vi entrar linda pelo corredor da igreja, mas não estava feliz. Eu estava me casando por medo de permanecer sozinho e você era meu objeto, Beatriz. Você era minha saída de um mundo independente e solitário, nada mais que isso. Enquanto você andava na minha direção, vestida de noiva, eu chorava de felicidade por você ser minha novamente e eu não ser mais o mesmo homem calvo e solitário.

Começamos nossa vida juntos naquela viagem ao exterior. Você queria ir aos pontos turísticos, eu queria ir à sua vagina. Minha melhor viagem era dentro de você, minha menina. Eu te acompanhei aos passeios nas ruas, nos cafés, nos museus, mas só estava lá por mim mesmo e admirava a sua beleza como se ela fosse minha.

Durante a viagem eu fui acometido daquela febre. Eu estava doente, mas disse que você poderia ir visitar sozinha os lugares que não fomos juntos. Você não quis, me disse que Paris não seria a mesma sem mim. Eu rejeitava os remédios, dizia que meu corpo deveria se acostumar a se curar sozinho. Eu não falava da febre ou da virose, eu me referia a conseguir me curar de você e da sua maturidade, mas falhei. Durante a volta, na classe executiva daquele avião silencioso, eu me agarrei às suas mãos pequenas e adormeci sem que você afagasse meus cabelos. Você me acordou dizendo que estávamos chegando e que era para eu olhar a cidade pela janela do avião. Eu disse para você me deixar dormir, que aquela cidade era minha melhor amiga, que eu não precisava vê-la de cima para amá-la mais. Foi então que percebi que não falava da cidade, falava de você. Você era minha melhor amiga, mas, diferente da cidade, eu precisaria te ver de cima para te amar, então decidi sair do aeroporto e te levar ao mesmo bar sujo em que nos conhecemos. Ali eu era maior que você.

Você bebeu, se entregou à mesma dança e aos mesmos versos de Nelson Rodrigues. Você, ali, era outra vez a minha menina, a mesma Beatriz de sempre, mas seus olhos eram diferentes. Você já não me amava do mesmo jeito.

Você se casou comigo por pena de mim, Beatriz, eu sei disso. Se casou por saber que eu nunca encontraria alguém tão grande quanto você para me amar do jeito que você me amava antes. Você já não gostava tanto do sexo e fingia orgasmos, me dava desculpas por não passar as noites em casa. Você era boa atriz, minha menina, e usava seus talentos para ludibriar meu ego, então eu me sentia o maior garanhão do mundo quando os vizinhos reclamavam do barulho dos seus gemidos de madrugada. Tive, portanto, a ideia de colocar os colchões no chão para que pelo menos o ranger do estrado da cama não incomodasse as velhas viúvas ou os casais menos apaixonados que nós.

Mas a diferença é que eles eram apaixonados de verdade. Quando estávamos à sós, eu te amava e você fingia, atuava para mim. Quando você passou a não voltar para casa após os ensaios eu entendi tudo. Eu fui até o bar com o karaokê e te vi dançando para um outro rapaz um tanto calvo. Você o olhava como havia olhado para mim um dia. Eu voltei para casa e te esperei a noite toda e, quando de manhã você retornou com a maquiagem borrada e os cabelos oleosos de suor, eu te ofendi. Ofendi sua fidelidade, sua integridade e duvidei do seu amor. Você chorou e concordou comigo, mas eu não poderia te ver ir embora e te perdoei como se a errada fosse você.

Comecei a dormir no colchão jogado no chão e você, do alto da sua cama – que já havia sido nossa – sonhava com outros rapazes e descia para me usar. Juntava-se a mim no nosso colchão e descontava no meu corpo flácido sua raiva por não mais me amar.

Com a minha barriga larga eu empurrei por muito tempo nosso relacionamento falido, mas a cada noite de estreia eu me recuperava e reciclava meu amor por você. Sob as luzes do palco você era mocinha, vilã, amava e era odiada, assim como na nossa vida e eu me apaixonava ainda mais, Beatriz.

Ontem eu ouvi seu choro do banheiro. Era normal, eu sempre ouvia, mas ontem você chorou de felicidade. Abriu a porta e me disse que eu seria pai. Eu te odiei, Beatriz. Eu era seu pai, não poderia ser pai de mais ninguém. Quando eu disse isso, você me olhou e instantaneamente parou de chorar. Se virou e voltou ao banheiro. Eu voltei ao quarto e me joguei no colchão no chão e dormi. Quando acordei nesta manhã a chuva caia torrencialmente do lado de fora da janela e você não estava mais dormindo. Sua cama estava arrumada, o café feito ainda estava quente e uma mensagem escrita num papel toalha me dizia “Adeus, meu menino”. Te vi saindo pela porta, te pedi para ficar. Você me bateu e saiu.

Agora eu bebo aqui sentado à mesa e brindo sozinho pela sua ida esperando ouvir a porta bater e você voltar. Depois desta chuva, depois deste meu tango bêbado, você vai voltar. Vai voltar para dançar novamente para mim.

Porque eu sei que você sempre volta, Beatriz.

Published in: on 17/10/2013 at 18:39  Comments (2)  

Passarinho


O padre no altar pegou aquela coisa cheia de fumaça e balançou. Os sinos dobraram e todos abaixaram a cabeça. Eu continuei ali com as mãos nos bolsos, a cabeça explodindo nos meus olhos vermelhos e o suor escorrendo nas costas. As velhas beatas começaram a se movimentar para o corredor no centro da igreja e o padre também foi pra lá; “comunhão”, eles chamam.

Olhei pro lado e vi uma criança brincando com a imagem da Virgem Maria. Ajoelhei-me na frente dela e disse que dar-lhe-ia um doce se saísse dali. Obedeceu ao ver o pirulito.

Sentei no último banco e fiquei a observar a movimentação habitual. Quem recebia à boca a rodela branca, ajoelhava-se e rezava pra não morder a rodela branca sob a pena de tirar sangue; o próprio sangue da própria boca, diziam.

Eu mordi na minha primeira comunhão e não sangrei meu próprio sangue pela minha própria boca.

Existe pessoa que não transpõe regra. Pessoa essa só obedece e baixa a cabeça. O coroinha, pessoa essa que já fui, passou por mim a pedir-me meu dinheiro, fiz que não com os dedos marcados.

O teto pintado de cores coloridas faz brotar dali figuras santas com o nome escrito embaixo. Bonitas figuras. Sei de todas de cor, lembro-me de todas muito bem, uma por uma.

O cabeludo na parede parecia que olhava pra mim; cocei o nariz e ele parou. Ele parou.

Olhava o padre. Homem bom que ouve pecados e cuida dos pobres; é o que se ouve pelo mundo. Ele ouviu os meus um dia. Eu andava pela rua e ele me viu. Assustou-se com o sangue grudado em minhas mãos e em minhas roupas. Mamãe tinha-me dado a roupa. Amarela a roupa. Bonita a roupa.

A menina estava atrás da igreja, sem algumas das roupas; um corte feio e fundo na barriga. E tinha pelos. Pelos no lugar embaixo do corte. Tinha pelos da cor dos seus cabelos pretos. Só vi os pelos, ela ainda tinha uma saia bonita em cima da flor. Bonita saia. Eu nunca havia visto uma mulher assim. Bonita mulher. Tinha a pele branca e tinha também os olhos abertos, mas não via mais nada. Tinha os olhos castanhos abertos.

Gritei meu susto ao padre e ele me levou para dentro da igreja. Dentro. Com as imagens cobertas de roxo, não vi o cabeludo. Coberto de pano roxo, eu nunca entendi porque o cabeludo ficava coberto de pano roxo. Bonito pano roxo. Disse para o padre o que tinha feito. Tinha olhado a mulher. Pecado. Ele disse antes de eu dizer. Disse que tocar era pecado e tocar mulher era maior pecado. Disse-me para rezar até não aguentar. Disse-me para rezar até dormir com meus joelhos doendo na madeira dura. Passou as mãos nos meus cabelos e entrou pela porta do altar.

Eu rezava. Rezava com meus joelhos na madeira dura quando vieram homem. Eles me levariam, ele me disse. Me levariam num carro preto que piscava com luzes. Um homem de preto chegou, arma na cintura, e me jogou no chão e me amarrou as mãos. A arma na cintura. Feia arma. Me levou para um lugar feio.

Feio.

Cinza.

Cinza feio.

Cinza feito gaiola de passarinho. Dentro daquela gaiola feia e cinza não tinha passarinho, tinha gente.

Tinha gente que tinha que rezar, eles disseram-me Tinha gente que tinha que rezar até não aguentar, assim como eu. Gente que tinha que rezar até não aguentar os joelhos no concreto.

Entrei e ajoelhei. Rezei.

Senti dor no rosto. Me bateram e colocaram na minha boca. Não era doce, era amargo. Tinha pelos, mas não era bonito como os pelos da menina lá com a barriga cortada. E não tinha pele branca.

Tiraram minhas roupas e senti dor. Dor com pelos onde mamãe disse pra não mostrar. Senti amargo na língua.

Mais de um.

Mais de dois.

Mais de conta.

Eu, assustado, com dor de pelos, amargo na língua, vomitei no canto e rezei.

Amargo sujo, pelo sujo.  Nojo. Sinto sujo. Pecado.  Sinto sujo de pecado.

Pecado se vai com reza boa até não aguentar mais; até afundar os joelhos no concreto frio. Cinza frio. Cinza frio sujo de vermelho sangue quente.

Mais de um.

Mais de dois.

Mais de conta.

Reza boa não adiantava mais. Será que olhar menina nua era pecado tão grande? Senti falta da minha mãe. Mãe que vi chorando quando me levaram no carro preto. Ela chorava e gritava e berrava e desmaiava e acordava pra gritar de novo. Sinto falta de subir em árvore, correr, voar que nem passarinho livre.

Passarinho fora da gaiola, canta. Canta livre como que sem pecados. Voa, canta, sem precisar rezar até não aguentar. Eu, como tenho pecados, não posso mais voar, o padre disse. Não posso voar, não posso cantar.

Da grade da minha gaiola dá pra ver o céu e um passarinho de verdade canta ali, livre. Bonito passarinho, o passarinho verde. “Eu sou um passarinho preso. Me ajuda, passarinho!”

Homem bonito com cor branca na roupa foi pra gaiola. Me chamou de garoto e tirou-me da gaiola para ir para outro passeio de carro. Não gosto mais de passeio de carro. “Eu sou passarinho, quero voar, então por que me prendem? Por que cortam minhas asas?”

Carro branco com desenho vermelho. Carro branco bonito, desenho vermelho bonito. Antes de entrar no carro, me deram roupa nova branca. Camisa nova branca. Amarraram minhas mãos nas minhas costas com a própria camisa. Eu gritei vestido de branco com a roupa nova. Minhas mãos nas costas, presas. Eu gritava que não gostava mais de passeio de carro. Disseram que não sou passarinho, que sou pessoa. Mas, se eu sou pessoa, porque me prenderam na gaiola?

Dor no pescoço que parece picada de inseto. Picada de inseto aquela que me fez dormir. Não queria dormir, precisava rezar. “Rezar até dormir com os joelhos no cinza sujo… Rezar até afundar os joelhos no concreto…”

Dormir.

Acordei num quarto branco. Duas camas com dois colchões brancos. Gaiola branca, passarinhos vestidos de branco. Na gaiola branca, até que passarinhos podiam cantar. Cantavam e o outro cantava mais alto. Aí os passarinhos se bicavam. Lá todos os passarinhos se bicavam muito. Bicavam-se com socos, arranhões, mordidas, puxões de de cabelo. Lá eu era passarinho que bicava mais, pois não tinha mais pecados. E cantava alto, voava bicando, bicando, bicando. Mas parei de bicar. Na gaiola branca, quando bicava, homem de branco vinha e dava picada de inseto no braço. Picada de inseto dava vontade de dormir. “Rezar até afundar o joelho no branco sujo… Rezar até afundar o joelho no branco sujo da gaiola gaiola branca… Passarinho canta…”

Dormir.

Toda vez que passarinho cantava alto, homem de branco trazia doce e passarinho parava de cantar. Não era doce, era pílula, eles disseram. Era remédio pra acalmar. Passarinho via o doce e rezava pra não ter pecado. O doce era vermelho e vermelho sempre tinha pecado.

Passarinho cantava e bicava todo mundo quando acordava. Bica, passarinho! Bica homem que dá remédio e ele ficou vermelho de sangue de pecado. Bicou tanto, bicou tantos homens, que saiu da gaiola branca sem as mãos nas costas e com vermelho bonito de pecado na roupa. Passarinho cantou e voou para a rua. E passarinho não liga mais pra pecado.

Eu, passarinho, aprendi a gaiola cinza a fazer as próprias armas, a fazer o próprio bico, já que não tinha bico de verdade.

“Rezar até os joelhos afundarem no cinza branco de madeira suja. Madeira da igreja. Passarinho vai à igreja cantar. Vai cantar na igreja para tirar os pecados dos outros.”

Eu me lembro de ver o padre no altar a levantar a fumaça e balançar. Lembro das pessoas andando até ele para comer a rodela branca, como se não saísse sangue pela boca. Me lembro do padre. Homem bom que ouve pecados e cuida dos pobres, eu me lembro.

Eu ainda como passarinho livre, com doze anos, me lembro de ver o padre ajoelhado à colocar na boca os pelos da menina, atrás da igreja. Ela parecia mulher, mas era homem. Passarinha e passarinho ao mesmo tempo. Bonita passarinha-passarinho. Eu não entendia, mas na gaiola cinza eu aprendi. Fiquei por lá 3 anos da minha vida de passarinho me lembrando sempre do padre a colocar na boca os pelos da passarinha que era passarinho. Aprendi na gaiola cinza a diferença entre passarinho e passarinha.

O padre me viu e acertou a passarinha que era passarinho. Acertou a passarinha-passarinho na barriga ao me ver. Tirou dela o sangue vermelho sujo e correu ao ver que eu o via. Gritei meu susto ao padre, com toda a força. Ele voltou com um sorriso nos lábios e disse para que eu dissesse que não vira nada. Não diria ver o que não vi, mas eu vi, sei que vi.  Reze, porque tocar é pecado. Tocar mulher é pecado ainda maior. Reze até não aguentar os joelhos na madeira. Depois veio o homem de preto e me levou.

Passarinho não esqueceu do padre que agora balança a fumaça e a balança lá na no altar. Mas agora passarinho está de volta e sabe cantar e voar e sabe também bicar.

Me sentei no último banco da igreja e observei. Na gaiola branca eu aprendi a observar, a ler e a calcular. Quando o coroinha, pessoa essa que já fui, me pediu dinheiro, fiz que não com os dedos marcados e continuei a observar. Vi uma criança à brincar com a imagem da Virgem Maria. Criança não pode ver passarinho bicar, então disse que dar-lhe-ia um doce se saísse da igreja. Obedeceu ao ver o pirulito.

Dali mesmo eu corri. Corri pelo corredor que dá no altar, sob a imagem do cabeludo. Corri e cortei a garganta do padre pecador, sujo. Biquei várias vezes.

Mais uma.

Mais de duas.

Mais de conta.

Alguns dos passarinhos em volta voaram. Voaram de medo. Eu ainda via os olhos do padre ali, iguais aos da menina da outra vez: abertos, mas não enxergavam mais nada. Gritei para que todos os passarinhos que ainda restaram o que o padre me fez passar: 3 anos na gaiola cinza, 4 anos na gaiola branca.

“Rezo por ti, padre, até não aguentar. Rezo até afundar meus joelhos na madeira. Rezo até não aguentar mais afundar meus joelhos na madeira.”

Um mesmo homem de preto vem e interrompe minha reza. Não é o mesmo homem, mas é igual. Me leva de novo para um passeio no carro preto com luzes. Agora eu sei que mereço o passeio no carro com luzes vermelhas de pecado.

Eu, passarinho, agora ri. Ri alto sem precisar afundar os joelhos na madeira.

Agora padre passarinho dorme igual ele fez passarinha-passarinho dormir. Padre passarinho agora também não voa mais.

Adeus, passarinho.

Published in: on 06/09/2013 at 17:38  Deixe um comentário  

Fugere Urbem

I

“Hoje eu aceito.

Meus olhos são ruins. Para enxergar o mundo preciso destes óculos com armação quadrada e lentes grossas que insistem em escorregar do meu nariz. Minha voz é fraca, quase sem som, e falo quase que num sussurro agonizante. Minhas mãos são frágeis, tanto que mal seguro esta caneta; tão frágeis quanto as minhas pernas que também mal seguram meu corpo.

Seria poético e bonito se eu dissesse o quanto sou feliz e aceito minhas condições, mas não sou, apenas aceito. Só sorrio quando leio e poetizo minha vida nas palavras dos outros – e finjo que tudo é meu.

Nasci um bebê magro e torto longe daqui, num lugar onde as ruas eram de terra e as pessoas eram naturalmente sujas daquela terra marrom como se dela tivessem nascido.

Não andei até meus 5 anos de idade. Minhas pernas eram muito frágeis e se quebrariam como os gravetos secos se por um milagre eu conseguisse me manter em pé.

Um dia um homem foi à minha casa. Ele vinha de longe, de mais longe do que eu poderia imaginar no auge dos meus 6 anos de experiência de vida engatinhando sobre aquela terra marrom. Ele oferecia vida nova, melhor, longe dali. Nos colocou num caminhão e viemos todos – Minha mãe e meus seis irmãos – chacoalhando como a carga viva que de fato éramos. Eu não entendia e olhava a paisagem, as casas, os animais, as cercas brancas e as árvores. Oh, as árvores! Como elas passavam rápido por mim… No começo eram todas secas, sem folhas, e o sol era forte. Senti a brisa tocar suavemente meu rosto e num suspiro delicado, adormeci. Quando acordei, as árvores já eram verdes, com vida, e o sol já não era mais tão forte. Num piscar de olhos eu estava aqui. A cidade era cinza, ventava muito. E fazia frio.

Fomos para uma casa. Não era a minha casa, era diferente. Era cinza como tudo que eu havia visto naquele lugar. Era cinza, fria e pequena. Ficamos lá, minha mãe, eu, meus irmãos e algumas outras famílias sem rosto assim como nós.

Todos, os sem rosto, estavam juntos, sem documentos, sem personalidade, sem importância. E éramos todos iguais.

Todos os dias eu via minha mãe se levantar enquanto ainda estava escuro e só voltar quando o sol já não mais entrava pelos vãos da janela. Ela caía no pedaço de colchão que lhe sobrava e se levantava no outro dia, mais uma vez, enquanto ainda estava escuro.

Um dia ela me acordou. Me chacoalhou pelo ombro e limpou meus olhos de sono com as pontas de seus polegares calejados. Ainda estava escuro. Ela pegou na minha mão e me levou até a escola. Disse que viria mais tarde me buscar, pra eu ficar ali e não chorar.

Lá a professora pegou minha mão e com paciência me guiou para escrever a letra “A”. Dia após dia, eu acordava e ia pra escola. Minhas muletas apoiadas na cadeira, o lápis na mão. Aprendia uma letra por dia até que chegou o momento em que eu descobri que eu podia juntar as letras e formar palavras, e com as palavras formar frases, e com as frases eu podia criar um mundo. Mundo este que só existia em mim. Do lado de fora ele não era tão bonito. Eu criava motivos pra explicar para as crianças bem-vestidas o motivo das minhas muletas e do meu sotaque. Eu negava minha natureza, minhas raízes – e minhas muletas. Me vi vivendo num mundo de fantasias que era só meu e de quem não me conhecia. Me reinventei de dentro pra fora, mas chorava todas as noites por não ser quem eu era. Mentia pros outros, mas nunca pude mentir pra mim mesma.

Todas as noites eu chorava até adormecer e não conseguir ver mais a sombra das muletas ao lado do colchão.

Sombra aquela que me torturava, me irritava, me lembrava do mundo real a que eu não queria fazer parte. Eu acendia a luz e me enfiava nos livros. Queria viver as aventuras de Dom Quixote, de Huncleberry Finn, de Pedrinho. Queria ser bonita como Capitu, livre como Tieta, cheia de vida como Narizinho. No auge dos meus 15 anos eu só queria ser tudo o que eu nunca poderia ser. Fechava os olhos e podia ser uma loira alta, de vestido vermelho e seios fartos no topo de um salto alto; me olhar no espelho e pintar meus lábios com batom, pentear meus cabelos lisos e contornar com lápis meus olhos azuis. Mas ao acordar, eu ainda era a menina morena raquítica, cabelos crespos, óculos enormes e pernas que não funcionavam direito. Eu odiava aquele espelho. Odiava tanto que não podia mais ver meu rosto, então peguei o batom e risquei. Comecei riscando o reflexo dos meus olhos, depois os riscos ficaram mais grossos, mais nervosos, mais fortes até que, num suspiro agonizante, o batom vermelho chegou ao fim e o plástico começou a riscar o espelho. Olhei para o borrão já sem algum reflexo à minha frente e me senti melhor quando aquele reflexo horrososo sumiu.

Alguns anos depois ainda morávamos no mesmo lugar, naquele momento já com menos famílias. Algumas delas haviam se mudado, conseguido alugar algum barraco numa favela qualquer ou voltado arrependidas pra terra marrom de onde viemos, mas nós ainda estávamos ali, no mesmo lugar. Meus livros encostados num canto da parede, minha muleta do lado da cama. Tudo exatamente como há anos atrás. Mas eu já não ia para a escola. O dinheiro era escasso, a comida sem gosto, os dias mais curtos. Eu trabalhava.

Saía pelas ruas com balas na bolsa e as muletas debaixo dos braços. Eu subia pela porta de trás dos ônibus na estação movimentada, oferecia minhas balas por trocados. Eu trocaria as balas por abraços, mas abraços são inúteis quando se precisa de dinheiro.

No fim do dia eu mancava até em casa. Andava pelas ruas escuras até a porta pequena no centro. Vagabundos, mendigos, prostitutas e eu. Todos iguais em busca de dinheiro ou, eu gostava de pensar, só de alguém que nos abraçasse e dissesse que tudo ficaria bem.

Naquele dia, assim como em todos os outros, o sino da igreja bateu às oito horas da noite e as pessoas começaram a descer as escadas. A missa das sete acabara e eu sempre tentava vender as balas aos fiéis que saiam de lá tocados pelo espírito divino. Aprendi a usar da boa vontade e do olhar de dó deles por mim. Aquele olhar hipócrita cheio de nojo e piedade, olhar de quem se sente superior. Afinal, nesse ponto, eu já não me importava.

Minhas balas acabaram. Minha bolsa agora estava cheia de moedas e livros. Como todos os dias as pessoas voltaram às suas casas e eu me sentei nos degraus da igreja, abri um livro e li um pouco. Naquela noite fria de julho, um cachorro subiu as escadas e me cheirou. Começou pelos meus chinelos, subiu pelos meus joelhos, minha barriga e chegou no meu rosto. Apoiou o nariz nas minhas coxas finas e ali ele se deitou. Eu perguntei baixinho pra ele se ele era tão sozinho quanto eu.

O acariciei e ele fechou os olhos.

Resolvi dar-lhe um nome, mas eu não queria ser injusta. Nomes são importantes, então dei-lhe o nome de “Cachorro”.

E todos os dias, quando eu me sentava nas escadas da igreja e abria um livro, Cachorro vinha manhoso, pedia carinho, se deitava nas minhas coxas e dormia até eu me levantar, depois me acompanhava até em casa.

Uma vez eu não me sentei. O acariciei e subi as escadas. Entrei pelas portas grandes e olhei o altar. A igreja vazia, o eco dos meus passos e das muletas no chão me envergonharam. As poucas pessoas la dentro se viraram pra mim, me julgaram com aqueles olhos hipócritas. Me sentei no fundo, num dos últimos bancos e olhei o rosto da imagem do homem ali na frente. Ele olhava pra baixo, estava machucado e sangrava preso à cruz.

Senti uma mão no meu ombro, olhei pra trás e vi o padre. Ele me perguntou se eu precisava de ajuda, e foi então que eu percebi que eu chorava copiosamente. Tentei responder que sim, mas soluçava e as palavras não saiam. Ele me levou até o altar, abriu uma porta e me fez sentar numa cadeira de madeira e me perguntou o que me afligia e eu respondi que minha própria existência era uma aflição. Respondi com toda a aflição do meu coração que me odiava, que não sabia o sentido da minha existência limitada. E eu soluçava mais ainda. Me envergonhei, me apoiei nas muletas e saí pela porta e dei de cara, ali no altar, com a grande imagem do homem na cruz e gritei. Gritei até meus pulmões doerem. Gritei perguntas, pedi respostas, mas a imagem ali não me dizia nada. “Por que você não pode me dar pernas boas, olhos bons? Por que não posso ser bonita?” E eu saí de la sob o eco das minhas muletas e os olhares curiosos e julgadores dos fiéis.

Por dois meses eu não saí de casa.

Um dia, por fome, decidi pegar o pacote de balas e voltar à rua. Não queria voltar à frente da igreja. Tinha vergonha de me reconhecerem e medo de me julgarem outra vez. Me mudei para os semáforos, mas eu não tinha chance quando os meninos com os malabares ou as velhas com crianças de colo chegavam. Outra vez fui obrigada a me mudar e passei a vender minhas balas na estação de trem. Do lado de fora, claro, porque para entrar eu precisaria pagar a passagem e eu não tinha esse dinheiro.

Eu sempre me sentava em frente a roleta e esperava boas pessoas passarem e me pedirem as balas; eu já não tinha, afinal, vontade alguma de oferecer nada à ninguém. Estava vazia, sentia saudades das minhas estórias, dos meus irmãos, da minha terra e do meu Cachorro.

Hoje eu não quero mais sentir saudades. Aceitei minha condição precária e meu quase insignificante peso na Terra. Deixo aqui agora, na forma desta carta, minha última (e talvez única) contribuição à este mundo que não me aceitou.

À quem interesse, fui à rua da igreja, no cruzamento com a Rua Brás Cubas, acabar com tudo isso.

Com pouco ou nenhum amor,
Rúbia.”

II

A carta não tinha data. Eu a encontrei jogada junto com uma bolsa cheia de livros ao lado do lixo, na entrada da estação de trem. Admito, o que me interessou num primeiro momento foram os livros, todos clássicos, mas agora, enquanto corro, me puno mentalmente por ficar 20 minutos lendo as capas deles antes de perceber a carta ali no meio. Se uma garota desesperada morrer hoje, a culpa é minha. Não, não, a culpa é de um mundo competitivo, cheio de metrópoles como esta que estão cheias de gente que não se olha e, dia-a-dia, adubam a planta nojenta do capitalismo. Eu corro pela avenida que acompanha a linha do trem. Minha mochila aberta deixa meus pertences todos caírem no chão, mas eu não me importo. Jogo a mochila longe para conseguir correr mais rápido. Trombo em algumas pessoas pelo caminho, derrubo um skatista e um chinês vendedor de pastéis. Peço desculpas e eles me mandam enfiar as desculpas num lugar em que eu não consigo ouvir. Porra, aquela menina! Como ninguém a notou, como ninguém ouviu os gritos silenciosos de uma garota à beira do colapso? Penso nas motivações comunistas do meu pai, em como elas me irritaram durante toda a infância e adolescência e no quanto elas fazem sentido agora. “Como o dinheiro se tornou mais importante que o indivíduo?”, eu ouço a voz dele na minha cabeça. “Filho meu não vai trabalhar num banco! Sai agora de casa!”. Penso na pessoa que eu me tornei. Ele não queria isso pra mim e hoje eu já não falo com ele há mais de 5 anos. Ele sonhava que eu fosse metalúrgico como ele, mas eu nunca quis aceitar a ideia de working class hero que ele me vendia. Li Marx com 7 anos de idade, cresci com Julio Verne, Mark Twain, Monteiro Lobato e Agatha Christie e hoje o que eu leio se resume à livros sobre financiamentos, logística e mercado financeiro. Em resumo, leio como burlar o sistema à meu favor fodendo quem quer que seja para o lucro da entidade bancaria para que eu trabalho seja cada vez maior. E essa menina, agora, vai se matar por minha causa. Eu sou um dos culpados de tudo isso, sim! Somos todos culpados. Então eu corro. Corro pela culpa de todos, corro pela vida, pela minha vida. Corro para tentar redimir todos os meus erros, justificar minhas escolhas e corro, principalmente, porque aquela garota me fez conseguir me apaixonar outra vez pela minha vida ao tentar acabar com a própria. Meus sapatos batendo no chão, um passo largo após o outro numa corrida desesperada. Viro a esquina da Rua Brás Cubas com o coração batendo na garganta, o suor escorrendo pelo rosto e os olhos esbugalhados. O relógio da igreja soa às 19h. O barulho dos sinos se mistura com o som dos carros e suas buzinas. Ao longe escuto um grito. Corro mais rápido. É um grito de mulher, é um choro de menina. Olho para dos lados e não vejo ninguém, então, no meio da rua, ela está lá. Assim como na carta, é raquítica e mais feia do que eu imaginei. Os cabelos crespos, os óculos enormes. Tudo como na carta. Vejo suas muletas no chão. Ela tenta se equilibrar nas pernas frágeis num esforço sobrehumano. Os carros passam buzinando, os motoristas xingando à 70Km/h e ela lá no meio como um rato na armadilha. Uma caminhonete acelera ao longe. O barulho do motor antigo é alto e audível à alguns metros de distancia. Eu passo gritando o nome dela por entre os carros, ela me olha nos olhos antes de eu empurrá-la para a calçada e ser atropelado pela caminhonete.

No meio do tumulto, dos carros, da sirene da ambulância, eu não sei quanto tempo se passou, mas não sinto mais minhas pernas. Ela se aproxima de mim com lágrimas nos olhos. “Você leu?”, ela me pergunta. Eu lhe respondo que sim com a cabeça. Ela me dá um beijo na testa e me abraça. Os enfermeiros a tiram de perto de mim enquanto eu tento gritar, sem sucesso, para que ela fuja daqui e se livre desse lugar maldito.

Eles me colocam na ambulância e me perguntam se eu estou bem. “Não poderia estar melhor”, eu respondo. E eu percebo que pela primeira vez em anos eu fui sincero. Eu realmente não poderia me sentir melhor.

“Quero a vida, quero história pra contar.
Quero a dádiva de ver nascer o sol
sem as luzes da cidade pra ofuscar;
sem o farol”

Fugere Urbem – Aero26

Published in: on 02/07/2013 at 23:42  Comments (1)  

Manual para matar ratos

- Tudo bem, desliga essa TV.
– Não, eu quero assistir um pouco antes de dormir.
– Por que você não lê alguma coisa ao invés de ver reprise de novela?
– Porque eu gosto da novela.
– Apaga a luz.
– Achei que você ia ler antes de dormir.
– Não, só ia deixar acesa se você fosse ler, eu quero dormir.
– Não, eu vou assistir TV.
– Então apaga essa porra.
– Tá bom, vou apagar. Mas tudo bem se eu ver TV?
– Tudo bem, pode deixar ligada, mas deixa baixo, quero dormir.
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Ainda tá alto, dá pra abaixar mais um pouco? Você sabe que eu não consigo dormir com barulho.
– Se eu abaixar mais eu não vou ouvir.
– Mas eu não quero ouvir, quero dormir.
– Quer que eu desligue?
– Não, só quero que deixe mais baixo.
– Mais baixo eu não vou ouvir.
– Então desliga essa porra.
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Porra, agora eu não consigo mais dormir.
– O que aconteceu, amor?
– Não consigo mais dormir por causa da sua maldita novela.
– Mas eu já desliguei…
– Foda-se! Me fez perder o sono. Ainda tem vodca?
– Não sei, vê na geladeira.
– Tá bom.
– Fecha a porta quando sair pra luz da cozinha não me atrapalhar, por favor.
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Hey…
– Hm…
– Ainda tá acordada?
– Hm.. Tô.
– Tem um rato na cozinha.
– Deixa ele lá. Entra aqui, fecha a porta e dorme. Amanhã você mata.
– Tá louca, mulher? Não vou conseguir dormir sabendo que tem um rato em casa.
– Então vai lá e mata. Mas não faz barulho, quero dormir.
– Tá bom.
– Fecha a porta quando sair pra luz da cozinha não me atrapalhar, por favor.
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Hey…
– Hm…
– Matei o rato!
– Parabéns, agora apaga essa luz e vem dormir.
– Não consigo, to sem sono e preciso tomar um banho, fiz uma sujeira grande na cozinha.
– Então vai tomar banho e vem pra cama, amanhã eu limpo a cozinha.
– Tá bom.
– Fecha a porta do banheiro, não quero o vapor do chuveiro no quarto todo, e apaga luz.
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Porra, abaixa esse volume.
– Agora eu to sem sono. A cara daquele ratinho ainda ta na minha cabeça.
– Quê?
– Você nunca matou um rato, não sabe como é.
– Tenho certeza de que não é pra tanto. Abaixa isso, eu quero dormir.
– Tirar uma vida inocente é barra…
– Era um rato!
– Era uma vida, mulher. Insensível!
– Tá bom, eu sou insensível, mas abaixa o volume.
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Ainda tem vodca?
– Mas que porra, você não viu aquela hora?
– Não! Tinha um rato na cozinha, esqueci da vodca.
– Eu sei que tinha um rato.
– Não vou conseguir dormir sem a vodca, mas o rato ainda tá na cozinha.
– Você largou um rato morto na cozinha?
– Você disse que ia limpar amanhã…
– Mas eu não achei que tinha um cadaver jogado no meio da minha cozinha!
– Não é um cadaver, é um rato morto.
– Um rato morto é um cadáver, sua anta.
– Vai lá pegar a vodca pra mim?
– Você tá com medo de um rato morto?
– Não, to com remorso. Não consigo olhar pra ele.
– Ai… tá bom.
– Obrigado.

- Caralho! Precisava fazer toda aquela bagunça?
– O rato era esperto, tive que afastar a mesa.
– Tem uma poça de sangue de rato no meio da minha cozinha!
– Ratos tem sangue também.
– Eu não vou limpar aquilo.
– Você disse que ia limpar.
– Eu não sabia como estava… Eu tenho nojo.
– Você não deveria prometer coisas que não vai cumprir.
– Eu tenho nojo!
– Cadê a vodca?
– Não peguei! O chão ta cheio de sangue e eu to descalça, não ia andar até a geladeira com o chão naquele estado.
– E agora?
– Agora dorme.
– Não vou conseguir dormir sem a vodca.
– Assiste TV até dormir, então, oras…
– Não consigo dormir com barulho.
– Meu deus! Só vira e dorme!
– Tá bom. Então apaga a luz.
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Hey…
– Hm…
– Quer transar?
– Não, só quero dormir.
– Frígida!
– O quê?
– É, frígida!
– Por que eu sou frígida?
– Porque não quer transar.
– Eu to com sono!
– Mas eu não tô… e to sem vodca.
– Dane-se.
– Não quer mesmo transar?
– Não!
– Tá bom. Desculpa. Boa noite.
– Boa noite.

- Porra, o que você tá fazendo? Apaga essa luz!
– Tô procurando o desengordurante.
– No quarto, ô, idiota? Pra que você precisa de desengordurante?
– Joguei agua no chão da cozinha pra tentar limpar, mas o sangue não saiu todo. O chão tá grudando, preciso acabar de limpar.
– Mas você ta se sujando de novo! Você não vai deitar assim na cama.
– Tô sem sono.
– Você tem que acordar cedo pra trabalhar… Toma um banho e deita logo. Amanhã eu passo pano na cozinha.
– Tá bom.
– Fecha a porta do banheiro, não quero o vapor do chuveiro no quarto todo, e apaga luz.
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Hm…
– Hm…
– Hm…
– Hm…
– Hm…
– Hm…
– Ah….
– Satisfeito?
– Agora tô. Desculpa te chamar de frígida.
– Tudo bem. Agora que você já gozou, vai dormir.
– É que eu tava com a cara do rato na cabeça.
– Falando nisso, onde você jogou o rato?
– No cesto de lixo na rua.
– Não, amor, não pode! Quando o lixeiro jogar o saco no caminhão, o cadaver vai explodir na cara dele.
– Explodir o que? Todo o sangue o filho da puta tava no chão, não tem nada pra explodir.
– Vai lá, tira de la.
– Não, quero dormir agora.
– Vai tirar de lá!
– Tá bom.
– Fecha a porta.
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Eu trouxe a vodca, quer um pouco?
– Apaga a luz, porra!
– Bebe um pouco comigo, por favor.
– Você tá chorando?
– Tô!
– Por que?
– O rato, porra. Ele não merecia ser esmagado por uma vassoura só por ser mais indefeso.
– Você tá bêbado! Há quanto tempo você tá aí parado bebendo?
– Sei lá.
– Puta que pariu…
– Melhor eu dormir.
– Você não vai deitar comigo com esse bafo. Vai escovar os dentes.
– Tá bom.
– Agora!
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Sabe o que eu to pensando?
– Você ainda não dormiu?
– Não, to pensando aqui.
– No que?
– Posso te perguntar uma coisa?
– Fala logo.
– Agora há pouco, você gozou também ou só transou comigo pra eu dormir logo?
– E importa?
– Claro que importa!
– Gozei também. Satisfeito?
– Mentira!
– Pff…
– Frígida!
– Você tá bêbado!
– Vou dormir na sala, não quero dormir com você.
– Vai logo!
– Vou mesmo!
– Porra, apaga a luz!
– Tá bom. Boa noite.
– Boa noite.

- Amor?
– Hm…
– Volta pra cama, tá frio aqui.
– Não quero.
– Vem pra cama.
– Você gozou?
– Gozei, amor. Agora vem pra cama.
– Jura?
– Juro.
– Tá bom, eu acredito em você.
– Isso, vem… Não! Não pisa aí!
– Tá bom.
– Isso, deita.
– Eu te amo, sua frígida.
– Eu também, seu idiota.
– Você me acha idiota mesmo?
– Não, é só maneira de falar.
– Jura?
– Juro.
– Tá bom, eu acredito em você.
– Agora dorme.
– A luz da cozinha ficou acesa.
– Foda-se, já tá amanhecendo mesmo, não faz diferença.
– Tudo bem. Boa noite.
– Boa noite.

Published in: on 30/01/2013 at 4:09  Comments (4)  

Mulheres Negras

1.

Não havia uma única estrela no céu naquela noite. Nenhuma santa alma perdida e torta andava pela rua, nenhum som podia ser ouvido em lugar algum além das goteiras que ecoavam nas calçadas. Somente as lâmpadas amarelas dos postes e as luzes de Natal iluminavam os ratos que andavam pelo meio-fio e os mendigos que dormiam embaixo dos jornais. Nenhum deles podia ver a lua escondida atrás dos prédios e das nuvens, só que ninguém dentro daquele quarto sujo de hotel estava interessado nisso – nós tínhamos coisas mais importantes para pensar.

Eu estava amarrado na cama, cada membro do meu corpo estava imóvel mas, instintivamente, eu só me preocupava com meus testículos expostos àquela maníaca. Ela estava nua, em pé na cama com um salto alto, gritando comigo. Na mão, um caco do vaso de vidro que ela havia quebrado na parede um pouco antes.

“Babaca, filho da puta! Seu escroto filho da puta!”

Eu não respondia. Estava muito assustado tentando silenciosamente desamarrar os lençóis que prendiam meus pulsos ao estrado da cama. Ela continuava pulando no colchão. O cabelo desarrumado e os seios balançando por sobre o meu rosto. Por um segundo esqueci do resto do quarto e, mesmo assustado, parei para admirá-la mais uma vez. Por mais que ela se mostrasse naquele momento uma maníaca possessiva e violenta, ainda assim era uma das mulheres mais lindas que eu já havia visto. Sua pele negra brilhava com o suor e mesmo de longe eu podia sentir a textura, a maciez e o cheiro adocicado que ela expelia pelos poros. Os seios de tamanho médio que cabiam perfeitamente nas minhas mãos e os mamilos grandes e negros que pareciam serem feitos pra minha língua e meus dentes. A cintura fina, os quadris largos e os negros e encaracolados pelos do púbis completavam a silhueta que me fazia ter vontade de me soltar e tomá-la violentamente mais uma única vez. Mas não. Ela ainda pulava descontroladamente em cima do colchão. Andava de lá pra cá, impaciente, saltava da cama, mexia no criado-mudo, bebia o champanhe da garrafa e, num pulo, voltava a cravar o salto alto no colchão apontando o pedaço de vidro afiado para o meu rosto.

- Mas eu nunca disse isso, querida…

- Não… me chama… de querida.

- Mas você é. Eu te amo.

- Eu vou cortar seu rosto todo com isso! – Disse montando em mim outra vez chacoalhando o pedaço quebrado do vaso em direção às minhas bochechas.

Eu sempre gostei de mulheres negras e com o tempo aprendi onde achá-las sem precisar procurar muito. Desde que eu era um adolescente cheio de espinhas na época da escola, as garotas brancas nunca me interessaram muito. Sempre achei sem graça o estereótipo (que meus amigos julgavam perfeito) da garota loira pálida, com as maças do rosto rosadas, peitos grandes e olhos claros. Quem me interessava era a garota da sala ao lado na sexta série. Ela tinha os cabelos crespos armados e usava uma presilha com uma flor de plástico presa ali. O ano todo eu a observei pelos corredores desfilando com a camiseta branca do uniforme sem mangas, a calça preta, os tênis vermelhos e a flor no cabelo sem coragem de chegar perto dela. Dois anos depois ela ainda era a garota mais linda da escola. Os seios tinham crescido, mas ela ainda usava o mesmo numero de camisetas, fazendo com que os seios ficassem marcados ali como peras por baixo do sutiã. Isso alimentou minha imaginação por algum tempo até que no fim de ano ela me abordou.

“Você tem horas?” Eu olhei meu velho relógio de pulso que eu havia achado perdido na gaveta alguns meses antes. “Quinze pras onze,” eu disse. “Obrigado.” E se virou, dando as costas pra ir embora. “Hey!” Eu a toquei no ombro e ela se voltou pra mim. “Qual seu nome?” Eu sabia o nome dela, claro, mas eu tinha que começar a conversa de um jeito ou de outro. Então ela não me disse. Mas antes de ir embora, me beijou, sorriu e saiu com os cabelos balançando. Foi ali que eu tive certeza que mulheres negras eram muito melhores que as brancas. Pelo menos até eu encontrar Laura outra vez naquela boate.

De fato eu não sei se era uma boate ou um bar, mas as pessoas bebiam e dançavam funk, soul e R&B lá. Era uma boate quase que exclusivamente de negros, então nós estávamos chamando mais atenção do que eu gostaria. Falamos sobre os antigos amigos, os novos trabalhos, e sobre nosso affair que durou mais de um ano. Uma hora e meia depois eu estava sendo chupado numa das cabines do banheiro feminino, não pela Laura como eu gostaria, mas pela Paula.

- Vai, responde!

Agora Paula estava montada em mim com o caco de vidro na direção do meu olho. A vulva friccionada contra a minha barriga. Meu pênis, agora ereto, apontando para o ânus dela, se pudesse falar, diria “Cavalga em mim!”

- Eu não posso responder se você não me disser o que quer saber!

- Você sabe muito bem o que eu quero saber! – Ela começou a passar a ponta do caco de vidro no meu tórax fazendo cortes longos e finos. Eu segurei a dor. Apertei os dentes e não gritei. Senti o sangue escorrendo por entre meus pêlos. – Eu vou continuar com isso até você me dizer.

- Eu não sei o que você quer saber, pelo amor de deus! Ela saiu de cima de mim e começou a andar pelo quarto, impaciente. Abriu o frigobar, pegou uma cerveja e tomou toda em dois ou três goles. Mexeu nas gavetas do criado-mudo; estavam todas vazias a não ser pela bíblia que os hotéis sempre deixam por ali.

- Porque você tá fazendo isso?!

- VOCÊ me diz. Por que eu estou fazendo isso?

- Me tira daqui, por favor, eu não sei o que eu fiz, mas a gente pode resolver de outro jeito. Se você me desamarrar a gente pode conversar direito.

- Conversar? Você não acha que já conversou demais? Que já me levou muito nessa tua conversa?

E nisso, de súbito, cravou o pedaço de vidro na palma da minha mão esquerda, ainda presa pelo lençol no estrado da cama. Eu gritei. Gritei tanto que ouvi o eco da minha própria voz vagar sozinho pelos corredores do hotel. Ela me olhou rindo de uma maneira forçada, imitando a gargalhada dos psicopatas de filmes de terror, tentando esconder o próprio nervosismo.

- O que você quer que eu te diga? O que você quer que eu faça? Por favor!

- Não quero que faça nada, só quero que admita o grandessíssimo filho da puta que você é.

- Eu não entendo… Se você quer me punir por alguma coisa, que pelo menos me diz o motivo!

Ela se calou. Enquanto eu via o sangue quente escorrer pelo buraco na minha mão, ela andou pelo quarto tentando encontrar alguma coisa. Olhou debaixo da televisão, outra vez revirou as gavetas, mas desistiu e se sentou na poltrona em frente à cama.

- Você nunca amou ninguém – Ela disse olhando pra baixo, como se falasse sozinha. – Você voltou com a cara de um cãozinho perdido, me pediu pra ficar uma noite, depois outra e outra e eu acreditei. E agora? Agora você ME pergunta por que eu estou fazendo isso…

- Eu pensei que você tivesse me desculpado de verdade. Eu sempre quis você, só você.

- PARA DE MENTIR UMA VEZ NA SUA VIDA! Como você consegue? Como consegue se olhar no espelho?

- O que eu fiz não foi certo, mas eu me arrependi. Voltei e te pedi perdão, mas se você não consegue entender isso…

- Eu tenho que entender que você ainda continua enfiando esse teu pau torto na mesma vadia com quem você me traiu?

- Não! Pelo amor de deus, não! Eu nunca mais vi a Laura.

- Ah, é? – Claro! Eu juro! Agora me solta, por favor. – Você acha que eu sou burra? Eu vi aquelas malditas flores! Você andando pela rua com um sorriso na cara, entrando na loja de flores e saindo com aquilo… Aquele buquê gigante, vermelho… Seu filho da puta!

- Oh.. não, não.. espera, não! Você tava me seguindo? Você é louca!

- Ah, agora você admite!

- Não! Porra…

Eu não sabia mais o que dizer. Olhei minha mão esquerda, ensanguentada  presa pelos lençóis.

- As flores eram pra você…

- Seja homem uma vez na sua vida, para de mentir!

- Claro que eram. Pra quem mais seriam?

- Pra Laura, quem sabe? – Disse ela num tom solene, como se fizesse uma apresentação. – A linda donzela indefesa. VADIA!

- As flores eram pra você. Se você estivesse em casa agora ao invés de ter me trazido aqui pra isso, teria visto. Ela cruzou os braços.

- Eu não acredito em você.

- Olha o bolso direito da minha jaqueta, o do lado de fora.

Ela andou até a cadeira onde a jaqueta ainda descansava sobre o encosto, enfiou a mão no bolso e tirou a pequena caixa dali. Abriu, olhou, arregalou os olhos e, ainda com olhar confuso, se virou pra mim.

- Isso é pra mim?

- Sim, essa aliança era pra você. Eu ia te pedir em casamento hoje antes de você surtar desse jeito!

- Como? Ah… Como? Como eu sou estúpida! São lindas!

Ela começou a chorar compulsivamente, se agarrava ao pé da cadeira e gritava, dava tapas em seu próprio rosto. Levantou os olhos pra mim.

- Você algum dia vai me perdoar por isso? – Disse ela apontando pros lençóis que me pendiam à cama.

- Eu não sei. Mas seria um bom começo você me desamarrar…

Ela se levantou do chão. Naquele momento toda a doçura de seu corpo nu agora era visível. Ela andou suavemente pelo quarto, da cadeira até a cama e, ainda com lágrimas nos olhos, desamarrou os lençóis dos meus pulsos.

- Me desculpa, por fav…

Antes que ela pudesse terminar a frase, eu a acertei na cabeça com o abajur.

2.

Minha cabeça doía. Olhei em volta, mas não reconheci coisa alguma com a vista embaçada. Tentei me lembrar onde estava.

“Ele ia me pedir em casamento. É! Mas alguma coisa me bateu. O que será?”

- Você não vai desmaiar de novo, vai? – Eu ouvi ao longe

Abri os olhos e ele estava em pé, de cuecas e a camisa fechada até o começo do tórax, um cigarro aceso e a mão com um curativo ensanguentado feito de um pedaço do lençol. Olhei assustada para os meus pulsos, eu não estava amarrada. Me sentei na cama e senti uma tontura. Levei a mão à testa e respirei fundo.

- Agora você deve estar pensando “por que ele fez isso?”, não é?

- O que?

- Ah, é.. agora você ainda está assimilando as coisas. O buquê, o anel, o caco do vaso, o quarto. Relaxa, daqui a pouco você entende.

Eu não conseguia. Me deitei outra vez e olhei pro teto bege. Tudo à minha volta rodava, minha cabeça doía muito.

- Relaxa, eu não vou te matar.

- Ãh?

- É, só esperei você acordar pra poder ir embora. Assim eu sei que você não vai correndo pra policia e blablabla.

- Por que eu iria pra policia?

- Porque eu te deixei desacordada com um abajur, por exemplo. Por mais que fosse legítima defesa, a gente sabe que abuso doméstico nunca tem muita saída.

Tudo começava a fazer sentido.

- Por que você fez isso?

- Porque você é louca! Eu vim pra cá finalmente dar um pé na sua bunda e ir pedir a mulher da minha vida em casamento logo depois, mas você TINHA que me prender numa cama de um hotel barato e me ameaçar com um pedaço de sei la o que. Minha mão ta fodida! Olha isso! Sua puta!

- Pera aí, quando eu te chamei aqui você só ia terminar comigo?

- Não era merecido? Todas aquelas ligações silenciosas, as perseguições, as visitas pra Laura no trabalho dela? Você acha que eu não te vi me olhando de dentro do carro hoje cedo quando eu estava comprando as flores? Vai se foder! Só aceitei vir pra cá pra você se tocar.

- Então nada daquilo era pra mim? Então vo.. voce só..

- Você é lerda assim sempre ou ta zonza ainda? Quer um café?

- Você não ama ninguém… Como pôde?

- Claro que eu amo, mas nunca seria você. Você é louca, chata, possessiva… Nem eu nem ninguém pode amar você.

Agora tudo tinha mesmo feito sentido. Ele me usara enquanto não podia estar com a outra. Aquela vadia branca, sem sal, sem nada. Me levantei. Pude ver ele se endireitar na cadeira, ficar tenso.

- Não vou fazer nada, só vou me vestir pra ir embora.

- Ok.

Me virei e coloquei a calcinha e o sutiã sem olhar pra trás, a calça e a camiseta estavam do outro lado do quarto e eu tive que olhar pra ele. Não contive o choro quando vi aquele olhar frio e seco. Eu realmente tinha fodido tudo. A mão dele envolta no pedaço de lençol me lembrou do meu ataque. Vesti a calça e abotoei a camisa, vesti a jaqueta.

- Se você acha que eu sou louca, vou ser louca de verdade!

Coloquei a mão no bolso da jaqueta, tirei a 38 de lá e apontei pra cabeça dele. Ouvi batidas na porta.

3.

Esperei quase três horas pela ligação. O buquê de flores havia chegado, o bilhete me dizia para esperar por uma ligação, mas o telefone não tocou. Esperei enquanto assistia a um filme na TV aberta. Em meio aos longos intervalos comerciais, eu adormeci ao lado das flores jogadas ao chão. Quando tocou, pensei em nem atender ao telefone, tal qual era minha descrença de que algo pudesse mudar meu desapontamento, mas bocejei, limpei os olhos e atendi. Do outro lado ouvi uma voz desesperada, uma história estranha.

“Entendeu? E vem logo pra cá, por favor. Anota o endereço.” E eu fui.

Era o corredor de hotel mais imundo que eu já havia visto. Pilhas de lixo e jornais amontoadas nos cantos, flores mortas nos vasos ao lado das portas e um cheiro de mofo que cobria cada centímetro quadrado das paredes. Procurei pelo quarto certo por quase dez minutos, o papel com o numero anotado bem firme nas mãos. De um deles eu pude ouvir uma voz feminina que gritava. Era ali. Respirei fundo antes de bater na porta. Quando bati ouvi passos, um grito e vidro quebrando; pelo vão da porta, pude ver a luz se apagar. Por um minuto nada além dos grunhidos que os meus sapatos provocavam no assoalho velho logo embaixo de mim fez qualquer som. Bati na porta outra vez. Nada ainda.

- Bru? Eu sei que você ta aí, abre pra mim.

Ao invés de silêncio, ouvi sussurros. Tentei prestar atenção, apurar os ouvidos e entender o que se dizia lá dentro, mas o que eu ouvi foram passos fortes, a porta abrindo e em seguida vi uma mão me puxar pra dentro.

O quarto estava iluminado apenas pela luz dos abajures dos dois lados da cama. Olhei pra cima, a lâmpada do teto estava estilhaçada e soltava faíscas, o ventilador quebrado girava lentamente. Não podia ver quase nada ali, tateei as paredes e tropecei em alguma coisa. Ouvi passos dentro do quarto e parei, assustada.

- Psiiiiu…

- Quem está aí? No canto do quarto, ao lado do criado mudo, vi uma silhueta. Era ele.

- Bru!!! – Corri para abraçá-lo, tropecei em alguma coisa e caí. Ali no chão, em meio à minha dor, eu vi um corpo estirado. Cabelos armados, pele negra. Eu gritei.

- Cala a boca. – Ele disse me agarrando e colocando a mão na minha boca abafando o grito. – Fica calma, Laura.

Ele me ajudou a levantar e eu pude ver seu rosto. Estava pálido e assustado. O abracei.

- O que aconteceu aqui?

- É complicado. Eu ia pra sua casa, ela me trouxe aqui, me amarrou, me cortou, eu me soltei, ela apontou uma arma pra mim, você bateu na porta, ela foi atender, eu bati nela e agora ela ta aí no chão.

- Porra… E ela ta morta?

- Vai à merda, espero que não!

- Você já viu?

- Nem olhei pra ela. Ela jogou a arma pra cima quando eu bati nela e quebrou a lampada, não consigo ver nada.

- O que é isso na sua mão?

- Essa louca enfiou um pedaço de vidro aqui.

- Cara, como… como que isso aconteceu?

- Eu vim pra ca mandar essa vadia à merda antes de ir pra sua casa, aí ela pirou.

- Sei… Você ia pra minha casa pra quê?

- Eu ia… eu ia te pedir uma coisa.

- O que?

- Você realmente quer falar disso agora?

Ouvi um barulho no chão, uma tosse seguida de uma pancada seca. Olhei pra baixo.

- Ela ta acordando! E agora? – Eu disse.

- Não sei!

- Você disse que ela tinha uma arma. Cadê?

- Não sei… voou quando eu bati nela pra abrir a porta pra você.

- Acha agora!

- Vai, me ajuda!

Começamos a tatear pelo chão enquanto ela tossia e se contorcia ainda deitada. Ela começou a se levantar, se apoiando na cama.

- Bruno! Achou?

- Não, ainda não! Corre!

- Não consigo ver nada, ta difícil!

Ele gritou, eu ouvi uma pancada.

- Caralho, ela acordou. Corre, Laura! Acha essa porra!

Eu tateava no chão enquanto ouvia a briga deles e só via a silhueta dos dois em cima da cama dando tapas e socos um no outro. Eu tentava achar coisas no chão, mas só encontrava sapatos, baratas e poeira até que toquei algo frio. Coloquei os dedos em cima e agarrei.

- Achei!

- Atira!! – Ele gritou – Atira logo nela!

- Eu não to vendo! Porra!

- Vai logo!

Eu atirei. Ouvi o grito dele e tudo se silenciou. Eu havia errado? Quem eu acertei? Fui até a cama e coloquei a mão no lençol. Um liquido quente escorria dali.

- Bruno? Ele gemeu.

- Você acertou, amor. Ela morreu.

Eu podia ver. Ela estava jogada de bruços na cama com um buraco nas costas.

- A gente acabou de matar uma pessoa.

- Eu sei – Ele disse. Se levantou e me abraçou.

– Posso te perguntar uma coisa?

- Porra, o que?

Ele tirou uma caixa do bolso, se ajoelhou na minha frente. Pude ver pela luz do abajur que ele chorava.

- Quer casar comigo?

- Porra, a gente acabou de matar uma pessoa!

- Foda-se! Quer casar comigo?

- Claro!

Eu me abaixei e o beijei.

Published in: on 07/01/2013 at 4:10  Comments (5)  

E amanhã? (Oi, 2013!)

São 6h51 do dia 2 de fevereiro de 2013 e eu só me lembrei agora que não fiz um post de fim de ano. Sinto que eu não vi o ano anterior passar. Talvez eu estivesse num coma imaginário, passei o ano no piloto automático. Preocupações, certezas, obrigações, um livro atrás do outro, um fluxo de sinal, um botão, médios, agudos, graves.

O inicio, o fim e o meio.

Só parei agora pra olhar a arvore de natal piscando. Só consegui parar e admirar o quanto eu sou ruim em montar arvores de natal, mas mesmo assim ela parece linda pra mim. O silencio da casa, a calma do vento que entra pela janela.

Parece que o ultimo ano foi um tapa na cara: rápido, barulhento e cheio de sentimentos embaraçados num grande impulso de raiva.

Cometemos erros, mas lições foram aprendidas.

Agora o novo ano começa com as mesmas obrigações, as mesmas velhas preocupações, os mesmos ombros pra se apoiar, um novo suspiro de amor em velhas companhias.

E a mesma arvore de natal, agora desmontada dentro da caixa em cima do armário, me lembra que já temos um novo começo. E amanha, o que me espera? Não sei, mas eu quero estar aqui pra ver.

Oi, 2013! Sente-se, fique a vontade, se comporte e não faça merda.

Published in: on 02/01/2013 at 7:26  Deixe um comentário  

O inferno somos nós

Saí do elevador e dei de cara com um policial militar. Ele me olhou e continuou falando no celular, distraidamente. Olhei para os dois lados. Todos os corredores desse hospital pareciam iguais pra mim. Decidi ir para a esquerda. Passei por quartos e pelo balcão de atendimento, mas não era isso que eu queria. No fim do corredor, em cima do vão da porta, eu pude ler “CENTRO CÍRURGICO”. Ajeitei a mochila nas costas e entrei.

O lugar era silencioso. Perguntei pela minha mãe no balcão ao lado da porta de vidro e me mandaram esperar no sofá azul. Me sentei e olhei ao redor. O silencio latente e o cheiro de morte eram disfarçados pelo barulho das teclas do computador da recepcionista.

Ouvi passos e olhei pro lado. O policial militar passou por mim e se postou ao lado da porta de vidro, olhando fixamente pra frente.

Ouvi o barulho do meu celular e olhei pra ele. “A mulher com um super guarda-chuva aqui tá me atrapalhando a ver se o ônibus vem, aff”, eu li. O barulho das rodas de uma maca contra o piso liso me fez levantar os olhos. Em cima da maca, um menino negro, desacordado e usando touca cirúrgica era levado por duas enfermeiras. O policial empurrou a porta de vidro e as enfermeiras o empurraram até o que eu supus ser a sala de operação e os acompanhou. Dez minutos depois ele saiu e voltou pelo mesmo corredor de onde havia vindo.

Baixei os olhos para o celular e respondi outra sms. Eu batia os pés no chão inquietamente e o barulho ecoava nas paredes do corredor vazio. Já estava há meia hora sentado na entrada da cirurgia e precisava demais de um cigarro. Achei as escadas e desci até o térreo. Passei pelo hall do hospital e, do lado de fora, acendi um cigarro olhando por dentro da neblina a garoa cair por sobre toda a calçada.

O segurança do hospital que parou do meu lado falava sozinho mexendo no bigode, uma mulher saia sozinha numa cadeira de rodas e um morador de rua me pediu um cigarro. “Não sustento vicio de marmanjo”, eu disse. Terminei o cigarro e voltei pro hall. O hospital é grande e eu estava com preguiça de subir as escadas, então entrei outra vez pelo elevador respondendo minhas sms atrasadas. Quando a porta se abriu, o policial militar, parado no mesmo lugar de antes, ainda ria falando no telefone celular, mas agora um homem estava sentado ao seu lado. Os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos sobre os olhos.

Voltei minha atenção para o celular enquanto voltava à porta da cirurgia. Me sentei. Não sei bem quanto tempo se passou, mas o policial voltou à sala acompanhado pelo homem e por um investigador. A enfermeira abriu a porta de vidro e, se dirigindo ao homem, disse:

- O Doutor quer falar com você.

O policial abriu a porta de vidro, deu passagem para o os outros dois homens, entrou e a fechou. Não pude mais ouvir o que se dizia lá dentro, mas ali do sofá, através do vidro, pude ver o rosto do homem ir de uma expressão confusa à um choro desesperado. Ele gritava, se contorcia. As lágrimas brilhantes que jorravam pelo seu rosto negro escorriam pela camisa. Eu não ouvia nada. Meu coração se apertou. O mundo parecia insignificante perto daquilo, defronte ao mais puro sofrimento humano tudo perdia a importância e se tornava pequeno.

Eu desci. A cada degrau em que eu pisava meu coração acelerava, a cada andar minha respiração se tornava mais intensa. Passei pelos quartos e pelas pessoas e as olhei todas no olhos. Olhos tristes e sem esperança, olhos revoltados e indignados. Passei pelo hall sem olhar para os lados. O segurança ainda falava sozinho ali na frente. Me sentei do lado do morador de rua, acendi dois cigarros, um pra mim e um pra ele.

Agora tudo fazia sentido.

Olhei para o meu celular, escolhi alguns nomes na agenda, escrevi “EU TE AMO” e enviei.

Published in: on 10/11/2012 at 16:05  Comments (5)  

Pequena crônica sobre teus olhos tristes.

     Estou sempre com os urubus voando sobre a minha cabeça.

     Os dias passarão, o outono levará a última folha das árvores e eu ainda estarei com uma sombra estranha atrás de mim na rua, com alguém me esperando na esquina, me esperando na saída.

     Estarei ainda, no fim do outono, com a imagem de um olhar encabulado rondando meus devaneios noturnos; olhos ingênuos que encaram o chão e a ponta dos meus sapatos. Oh!, esse olhar, agora desapontado, não guarda mais a euforia contida na surpresa de um “olá!” repentino no meio da tarde.

     Que o outono se vá e esse olhar volte a conter aquela euforia, mesmo que a causa não seja a lembrança de outrora.

Published in: on 13/04/2012 at 15:43  Comments (1)  

Esperando

     Eu estou aqui, sentado na poltrona com o pescoço tombado pra trás. As luzes da TV piscando iluminam freneticamente as manchas de infiltração no teto branco. E eu estou aqui, sentado na poltrona com o pescoço tombado pra trás. O som da TV enche a sala e não deixa que me ouçam do lado de fora. Eu tenho que gritar, mas minha voz sai baixa; mais baixa que a TV. E eu estou aqui, sentado na poltrona com o pescoço tombado pra trás. Meu peito dói. Um infarto, só mais um; talvez o último. E eu tento gritar, mas ninguém me ouve lá de fora. E eu estou aqui, sentado na poltrona com o pescoço tombado pra trás – esperando.

Published in: on 20/03/2012 at 17:53  Deixe um comentário  
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 492 outros seguidores