1.
Não havia uma única estrela no céu naquela noite. Nenhuma santa alma perdida e torta andava pela rua, nenhum som podia ser ouvido em lugar algum além das goteiras que ecoavam nas calçadas. Somente as lâmpadas amarelas dos postes e as luzes de Natal iluminavam os ratos que andavam pelo meio-fio e os mendigos que dormiam embaixo dos jornais. Nenhum deles podia ver a lua escondida atrás dos prédios e das nuvens, só que ninguém dentro daquele quarto sujo de hotel estava interessado nisso – nós tínhamos coisas mais importantes para pensar.
Eu estava amarrado na cama, cada membro do meu corpo estava imóvel mas, instintivamente, eu só me preocupava com meus testículos expostos àquela maníaca. Ela estava nua, em pé na cama com um salto alto, gritando comigo. Na mão, um caco do vaso de vidro que ela havia quebrado na parede um pouco antes.
“Babaca, filho da puta! Seu escroto filho da puta!”
Eu não respondia. Estava muito assustado tentando silenciosamente desamarrar os lençóis que prendiam meus pulsos ao estrado da cama. Ela continuava pulando no colchão. O cabelo desarrumado e os seios balançando por sobre o meu rosto. Por um segundo esqueci do resto do quarto e, mesmo assustado, parei para admirá-la mais uma vez. Por mais que ela se mostrasse naquele momento uma maníaca possessiva e violenta, ainda assim era uma das mulheres mais lindas que eu já havia visto. Sua pele negra brilhava com o suor e mesmo de longe eu podia sentir a textura, a maciez e o cheiro adocicado que ela expelia pelos poros. Os seios de tamanho médio que cabiam perfeitamente nas minhas mãos e os mamilos grandes e negros que pareciam serem feitos pra minha língua e meus dentes. A cintura fina, os quadris largos e os negros e encaracolados pelos do púbis completavam a silhueta que me fazia ter vontade de me soltar e tomá-la violentamente mais uma única vez. Mas não. Ela ainda pulava descontroladamente em cima do colchão. Andava de lá pra cá, impaciente, saltava da cama, mexia no criado-mudo, bebia o champanhe da garrafa e, num pulo, voltava a cravar o salto alto no colchão apontando o pedaço de vidro afiado para o meu rosto.
- Mas eu nunca disse isso, querida…
- Não… me chama… de querida.
- Mas você é. Eu te amo.
- Eu vou cortar seu rosto todo com isso! – Disse montando em mim outra vez chacoalhando o pedaço quebrado do vaso em direção às minhas bochechas.
Eu sempre gostei de mulheres negras e com o tempo aprendi onde achá-las sem precisar procurar muito. Desde que eu era um adolescente cheio de espinhas na época da escola, as garotas brancas nunca me interessaram muito. Sempre achei sem graça o estereótipo (que meus amigos julgavam perfeito) da garota loira pálida, com as maças do rosto rosadas, peitos grandes e olhos claros. Quem me interessava era a garota da sala ao lado na sexta série. Ela tinha os cabelos crespos armados e usava uma presilha com uma flor de plástico presa ali. O ano todo eu a observei pelos corredores desfilando com a camiseta branca do uniforme sem mangas, a calça preta, os tênis vermelhos e a flor no cabelo sem coragem de chegar perto dela. Dois anos depois ela ainda era a garota mais linda da escola. Os seios tinham crescido, mas ela ainda usava o mesmo numero de camisetas, fazendo com que os seios ficassem marcados ali como peras por baixo do sutiã. Isso alimentou minha imaginação por algum tempo até que no fim de ano ela me abordou.
“Você tem horas?” Eu olhei meu velho relógio de pulso que eu havia achado perdido na gaveta alguns meses antes. “Quinze pras onze,” eu disse. “Obrigado.” E se virou, dando as costas pra ir embora. “Hey!” Eu a toquei no ombro e ela se voltou pra mim. “Qual seu nome?” Eu sabia o nome dela, claro, mas eu tinha que começar a conversa de um jeito ou de outro. Então ela não me disse. Mas antes de ir embora, me beijou, sorriu e saiu com os cabelos balançando. Foi ali que eu tive certeza que mulheres negras eram muito melhores que as brancas. Pelo menos até eu encontrar Laura outra vez naquela boate.
De fato eu não sei se era uma boate ou um bar, mas as pessoas bebiam e dançavam funk, soul e R&B lá. Era uma boate quase que exclusivamente de negros, então nós estávamos chamando mais atenção do que eu gostaria. Falamos sobre os antigos amigos, os novos trabalhos, e sobre nosso affair que durou mais de um ano. Uma hora e meia depois eu estava sendo chupado numa das cabines do banheiro feminino, não pela Laura como eu gostaria, mas pela Paula.
- Vai, responde!
Agora Paula estava montada em mim com o caco de vidro na direção do meu olho. A vulva friccionada contra a minha barriga. Meu pênis, agora ereto, apontando para o ânus dela, se pudesse falar, diria “Cavalga em mim!”
- Eu não posso responder se você não me disser o que quer saber!
- Você sabe muito bem o que eu quero saber! – Ela começou a passar a ponta do caco de vidro no meu tórax fazendo cortes longos e finos. Eu segurei a dor. Apertei os dentes e não gritei. Senti o sangue escorrendo por entre meus pêlos. – Eu vou continuar com isso até você me dizer.
- Eu não sei o que você quer saber, pelo amor de deus! Ela saiu de cima de mim e começou a andar pelo quarto, impaciente. Abriu o frigobar, pegou uma cerveja e tomou toda em dois ou três goles. Mexeu nas gavetas do criado-mudo; estavam todas vazias a não ser pela bíblia que os hotéis sempre deixam por ali.
- Porque você tá fazendo isso?!
- VOCÊ me diz. Por que eu estou fazendo isso?
- Me tira daqui, por favor, eu não sei o que eu fiz, mas a gente pode resolver de outro jeito. Se você me desamarrar a gente pode conversar direito.
- Conversar? Você não acha que já conversou demais? Que já me levou muito nessa tua conversa?
E nisso, de súbito, cravou o pedaço de vidro na palma da minha mão esquerda, ainda presa pelo lençol no estrado da cama. Eu gritei. Gritei tanto que ouvi o eco da minha própria voz vagar sozinho pelos corredores do hotel. Ela me olhou rindo de uma maneira forçada, imitando a gargalhada dos psicopatas de filmes de terror, tentando esconder o próprio nervosismo.
- O que você quer que eu te diga? O que você quer que eu faça? Por favor!
- Não quero que faça nada, só quero que admita o grandessíssimo filho da puta que você é.
- Eu não entendo… Se você quer me punir por alguma coisa, que pelo menos me diz o motivo!
Ela se calou. Enquanto eu via o sangue quente escorrer pelo buraco na minha mão, ela andou pelo quarto tentando encontrar alguma coisa. Olhou debaixo da televisão, outra vez revirou as gavetas, mas desistiu e se sentou na poltrona em frente à cama.
- Você nunca amou ninguém – Ela disse olhando pra baixo, como se falasse sozinha. – Você voltou com a cara de um cãozinho perdido, me pediu pra ficar uma noite, depois outra e outra e eu acreditei. E agora? Agora você ME pergunta por que eu estou fazendo isso…
- Eu pensei que você tivesse me desculpado de verdade. Eu sempre quis você, só você.
- PARA DE MENTIR UMA VEZ NA SUA VIDA! Como você consegue? Como consegue se olhar no espelho?
- O que eu fiz não foi certo, mas eu me arrependi. Voltei e te pedi perdão, mas se você não consegue entender isso…
- Eu tenho que entender que você ainda continua enfiando esse teu pau torto na mesma vadia com quem você me traiu?
- Não! Pelo amor de deus, não! Eu nunca mais vi a Laura.
- Ah, é? – Claro! Eu juro! Agora me solta, por favor. – Você acha que eu sou burra? Eu vi aquelas malditas flores! Você andando pela rua com um sorriso na cara, entrando na loja de flores e saindo com aquilo… Aquele buquê gigante, vermelho… Seu filho da puta!
- Oh.. não, não.. espera, não! Você tava me seguindo? Você é louca!
- Ah, agora você admite!
- Não! Porra…
Eu não sabia mais o que dizer. Olhei minha mão esquerda, ensanguentada presa pelos lençóis.
- As flores eram pra você…
- Seja homem uma vez na sua vida, para de mentir!
- Claro que eram. Pra quem mais seriam?
- Pra Laura, quem sabe? – Disse ela num tom solene, como se fizesse uma apresentação. – A linda donzela indefesa. VADIA!
- As flores eram pra você. Se você estivesse em casa agora ao invés de ter me trazido aqui pra isso, teria visto. Ela cruzou os braços.
- Eu não acredito em você.
- Olha o bolso direito da minha jaqueta, o do lado de fora.
Ela andou até a cadeira onde a jaqueta ainda descansava sobre o encosto, enfiou a mão no bolso e tirou a pequena caixa dali. Abriu, olhou, arregalou os olhos e, ainda com olhar confuso, se virou pra mim.
- Isso é pra mim?
- Sim, essa aliança era pra você. Eu ia te pedir em casamento hoje antes de você surtar desse jeito!
- Como? Ah… Como? Como eu sou estúpida! São lindas!
Ela começou a chorar compulsivamente, se agarrava ao pé da cadeira e gritava, dava tapas em seu próprio rosto. Levantou os olhos pra mim.
- Você algum dia vai me perdoar por isso? – Disse ela apontando pros lençóis que me pendiam à cama.
- Eu não sei. Mas seria um bom começo você me desamarrar…
Ela se levantou do chão. Naquele momento toda a doçura de seu corpo nu agora era visível. Ela andou suavemente pelo quarto, da cadeira até a cama e, ainda com lágrimas nos olhos, desamarrou os lençóis dos meus pulsos.
- Me desculpa, por fav…
Antes que ela pudesse terminar a frase, eu a acertei na cabeça com o abajur.
2.
Minha cabeça doía. Olhei em volta, mas não reconheci coisa alguma com a vista embaçada. Tentei me lembrar onde estava.
“Ele ia me pedir em casamento. É! Mas alguma coisa me bateu. O que será?”
- Você não vai desmaiar de novo, vai? – Eu ouvi ao longe
Abri os olhos e ele estava em pé, de cuecas e a camisa fechada até o começo do tórax, um cigarro aceso e a mão com um curativo ensanguentado feito de um pedaço do lençol. Olhei assustada para os meus pulsos, eu não estava amarrada. Me sentei na cama e senti uma tontura. Levei a mão à testa e respirei fundo.
- Agora você deve estar pensando “por que ele fez isso?”, não é?
- O que?
- Ah, é.. agora você ainda está assimilando as coisas. O buquê, o anel, o caco do vaso, o quarto. Relaxa, daqui a pouco você entende.
Eu não conseguia. Me deitei outra vez e olhei pro teto bege. Tudo à minha volta rodava, minha cabeça doía muito.
- Relaxa, eu não vou te matar.
- Ãh?
- É, só esperei você acordar pra poder ir embora. Assim eu sei que você não vai correndo pra policia e blablabla.
- Por que eu iria pra policia?
- Porque eu te deixei desacordada com um abajur, por exemplo. Por mais que fosse legítima defesa, a gente sabe que abuso doméstico nunca tem muita saída.
Tudo começava a fazer sentido.
- Por que você fez isso?
- Porque você é louca! Eu vim pra cá finalmente dar um pé na sua bunda e ir pedir a mulher da minha vida em casamento logo depois, mas você TINHA que me prender numa cama de um hotel barato e me ameaçar com um pedaço de sei la o que. Minha mão ta fodida! Olha isso! Sua puta!
- Pera aí, quando eu te chamei aqui você só ia terminar comigo?
- Não era merecido? Todas aquelas ligações silenciosas, as perseguições, as visitas pra Laura no trabalho dela? Você acha que eu não te vi me olhando de dentro do carro hoje cedo quando eu estava comprando as flores? Vai se foder! Só aceitei vir pra cá pra você se tocar.
- Então nada daquilo era pra mim? Então vo.. voce só..
- Você é lerda assim sempre ou ta zonza ainda? Quer um café?
- Você não ama ninguém… Como pôde?
- Claro que eu amo, mas nunca seria você. Você é louca, chata, possessiva… Nem eu nem ninguém pode amar você.
Agora tudo tinha mesmo feito sentido. Ele me usara enquanto não podia estar com a outra. Aquela vadia branca, sem sal, sem nada. Me levantei. Pude ver ele se endireitar na cadeira, ficar tenso.
- Não vou fazer nada, só vou me vestir pra ir embora.
- Ok.
Me virei e coloquei a calcinha e o sutiã sem olhar pra trás, a calça e a camiseta estavam do outro lado do quarto e eu tive que olhar pra ele. Não contive o choro quando vi aquele olhar frio e seco. Eu realmente tinha fodido tudo. A mão dele envolta no pedaço de lençol me lembrou do meu ataque. Vesti a calça e abotoei a camisa, vesti a jaqueta.
- Se você acha que eu sou louca, vou ser louca de verdade!
Coloquei a mão no bolso da jaqueta, tirei a 38 de lá e apontei pra cabeça dele. Ouvi batidas na porta.
3.
Esperei quase três horas pela ligação. O buquê de flores havia chegado, o bilhete me dizia para esperar por uma ligação, mas o telefone não tocou. Esperei enquanto assistia a um filme na TV aberta. Em meio aos longos intervalos comerciais, eu adormeci ao lado das flores jogadas ao chão. Quando tocou, pensei em nem atender ao telefone, tal qual era minha descrença de que algo pudesse mudar meu desapontamento, mas bocejei, limpei os olhos e atendi. Do outro lado ouvi uma voz desesperada, uma história estranha.
“Entendeu? E vem logo pra cá, por favor. Anota o endereço.” E eu fui.
Era o corredor de hotel mais imundo que eu já havia visto. Pilhas de lixo e jornais amontoadas nos cantos, flores mortas nos vasos ao lado das portas e um cheiro de mofo que cobria cada centímetro quadrado das paredes. Procurei pelo quarto certo por quase dez minutos, o papel com o numero anotado bem firme nas mãos. De um deles eu pude ouvir uma voz feminina que gritava. Era ali. Respirei fundo antes de bater na porta. Quando bati ouvi passos, um grito e vidro quebrando; pelo vão da porta, pude ver a luz se apagar. Por um minuto nada além dos grunhidos que os meus sapatos provocavam no assoalho velho logo embaixo de mim fez qualquer som. Bati na porta outra vez. Nada ainda.
- Bru? Eu sei que você ta aí, abre pra mim.
Ao invés de silêncio, ouvi sussurros. Tentei prestar atenção, apurar os ouvidos e entender o que se dizia lá dentro, mas o que eu ouvi foram passos fortes, a porta abrindo e em seguida vi uma mão me puxar pra dentro.
O quarto estava iluminado apenas pela luz dos abajures dos dois lados da cama. Olhei pra cima, a lâmpada do teto estava estilhaçada e soltava faíscas, o ventilador quebrado girava lentamente. Não podia ver quase nada ali, tateei as paredes e tropecei em alguma coisa. Ouvi passos dentro do quarto e parei, assustada.
- Psiiiiu…
- Quem está aí? No canto do quarto, ao lado do criado mudo, vi uma silhueta. Era ele.
- Bru!!! – Corri para abraçá-lo, tropecei em alguma coisa e caí. Ali no chão, em meio à minha dor, eu vi um corpo estirado. Cabelos armados, pele negra. Eu gritei.
- Cala a boca. – Ele disse me agarrando e colocando a mão na minha boca abafando o grito. – Fica calma, Laura.
Ele me ajudou a levantar e eu pude ver seu rosto. Estava pálido e assustado. O abracei.
- O que aconteceu aqui?
- É complicado. Eu ia pra sua casa, ela me trouxe aqui, me amarrou, me cortou, eu me soltei, ela apontou uma arma pra mim, você bateu na porta, ela foi atender, eu bati nela e agora ela ta aí no chão.
- Porra… E ela ta morta?
- Vai à merda, espero que não!
- Você já viu?
- Nem olhei pra ela. Ela jogou a arma pra cima quando eu bati nela e quebrou a lampada, não consigo ver nada.
- O que é isso na sua mão?
- Essa louca enfiou um pedaço de vidro aqui.
- Cara, como… como que isso aconteceu?
- Eu vim pra ca mandar essa vadia à merda antes de ir pra sua casa, aí ela pirou.
- Sei… Você ia pra minha casa pra quê?
- Eu ia… eu ia te pedir uma coisa.
- O que?
- Você realmente quer falar disso agora?
Ouvi um barulho no chão, uma tosse seguida de uma pancada seca. Olhei pra baixo.
- Ela ta acordando! E agora? – Eu disse.
- Não sei!
- Você disse que ela tinha uma arma. Cadê?
- Não sei… voou quando eu bati nela pra abrir a porta pra você.
- Acha agora!
- Vai, me ajuda!
Começamos a tatear pelo chão enquanto ela tossia e se contorcia ainda deitada. Ela começou a se levantar, se apoiando na cama.
- Bruno! Achou?
- Não, ainda não! Corre!
- Não consigo ver nada, ta difícil!
Ele gritou, eu ouvi uma pancada.
- Caralho, ela acordou. Corre, Laura! Acha essa porra!
Eu tateava no chão enquanto ouvia a briga deles e só via a silhueta dos dois em cima da cama dando tapas e socos um no outro. Eu tentava achar coisas no chão, mas só encontrava sapatos, baratas e poeira até que toquei algo frio. Coloquei os dedos em cima e agarrei.
- Achei!
- Atira!! – Ele gritou – Atira logo nela!
- Eu não to vendo! Porra!
- Vai logo!
Eu atirei. Ouvi o grito dele e tudo se silenciou. Eu havia errado? Quem eu acertei? Fui até a cama e coloquei a mão no lençol. Um liquido quente escorria dali.
- Bruno? Ele gemeu.
- Você acertou, amor. Ela morreu.
Eu podia ver. Ela estava jogada de bruços na cama com um buraco nas costas.
- A gente acabou de matar uma pessoa.
- Eu sei – Ele disse. Se levantou e me abraçou.
– Posso te perguntar uma coisa?
- Porra, o que?
Ele tirou uma caixa do bolso, se ajoelhou na minha frente. Pude ver pela luz do abajur que ele chorava.
- Quer casar comigo?
- Porra, a gente acabou de matar uma pessoa!
- Foda-se! Quer casar comigo?
- Claro!
Eu me abaixei e o beijei.